Angst e hygge

Angst e hygge

Em Copenhague fui tomar um drinque de champanhe no bar Balthazar, porque soube que era frequentado por Kierkegaard. Queria ficar com a ilusão que tinha sentado na mesma cadeira que o filósofo existencialista. 

Foi lá que conheci o Lars. Ele puxou conversa com amenidades e perguntas clássicas. De onde eu era, se estava gostando da cidade, frases de gentileza. Quando disse que era do Brasil me lançou um olhar de curiosidade, como se estivesse diante de um exemplar exótico. Mas dei o devido desconto que se dá aos eurocêntricos. Afinal, ele era gentil e simpático.

E então aprendi com ele duas palavras em dinamarquês: angst e hygge. Elas têm significados bem diferentes, mas ambas têm a ver com Soren Kierkegaard.

Angst é usada para representar medo e ansiedade ao mesmo tempo. Mas não se aplica ao um medo objetivo, como o que sentimos quando estamos diante de um perigo óbvio.

Imagine o medo de um homem diante de um precipício. Nada mais natural do que sentir medo de cair. Mas não é disso que Kierkegaard fala.

Ele se refere ao fato de que o homem sabe que cair ou não cair depende dele. É ele que tem que decidir se se afasta ou se salta.

É nessa decisão que reside a grande angústia, pois todos os dias somos levados a tomar decisões, grandes ou pequenas, que podem nos afastar ou nos aproximar de algum abismo. E temos que decidir, mesmo sem nos sentirmos capazes para tanto.

Já, hyggenos mostra uma saída. Tem a ver com um estilo de vida que nos ajuda a enfrentar a angústia de viver. Os dinamarqueses sabem muito bem fazer isso e era a prática e a proposta do Kierkegaard.

Hygge é caminhar pela cidade sem pressa, apreciando as pequenas belezas. É parar para um chá ou café e conversar com uma pessoa, ou mais de uma, que podem ser amigos de longa data ou desconhecidos que serão amigos por alguns instantes ou por toda a vida. Eu e Lars fomos amigos de infância enquanto a conversa durou.

A arte de conversar apenas para transformar aquele momento em algo agradável tem algumas regras, como saber ouvir, prestar atenção sincera ao outro, não elevar jamais a voz, e, principalmente, evitar temas polêmicos, como política ou religião.

Então, sem ter como fugir do angst, quer tal praticar o hygge?

Vai que melhora a vida. O que acha?

Ótimo domingo. Grande semana!

Adendo:

Em Copenhagen está o Instituto de Pesquisas da Felicidade (happinessresearchinstitute.com), que procura criar indicadores para medir e práticas para estimular a felicidade das pessoas.

Seu diretor, Meik Wiking escreveu um livro sobre o assunto.

O título? – Hygge – a felicidade nas pequenas coisas.