Esperança, essa impostora

Esperança, essa impostora

Algo que sempre me intrigou: o que a esperança estava fazendo na caixa de Pandora?

Vamos ao mito. Pandora foi a primeira mulher criada por Zeus, e todos colocaram nela qualidades. Atena lhe deu a vida, Afrodite a beleza, Apolo uma voz suave, Hermes lhe deu a meiguice o poder de persuasão.  Pandora era humana, mas tinha dons das deusas e dos deuses. Irresistível, portanto.

Hefesto, deus das ferramentas, fez para ela a caixa da felicidade, e alertou que a felicidade dependia de não abrir a caixa. Ela nunca saberia o que havia ali. Mas Hermes lhe tinha dado a curiosidade… E agora?

Nesse tempo, Zeus estava possesso com o titã Prometeu, que havia entregado o fogo e o conhecimento aos humanos, poderes exclusivos dos deuses. Resolveu, então, punir Prometeu e também os homens.

Prometeu foi amarrado a um rochedo. Durante o dia uma águia comia seu fígado, que se regenerava de noite. Dessa forma, seu martírio seguiria pela eternidade.

Os humanos também receberam um castigo eterno, pelas mãos de Pandora. Ela foi mandada para se casar com Epimeteu, irmão de Prometeu. Como o marido andava sempre ocupado, criando os animais, um dia, entediada, Pandora não resistiu, abriu a caixa, e deu no que deu.

Dela saíram todos os males, até então aprisionados. A raiva, a inveja, as guerras, a fome, a tristeza, passaram a fazer parte do cotidiano dos humanos, e o mundo ficou um lugar complicado para se viver.

Mas, lá no fundo da caixa, encolhidinha, estava ela, a esperança. Mas, o que ela fazia lá, junto com os males? Duas versões:

1 – A esperança é um bem necessário para podermos conviver com os males.

2 – A esperança é o pior dos males, pois faz com que fiquemos paralisados esperando que os males um dia terminem, mas eles não terminam.

Faça sua escolha…

Nietzsche fez. Decepcionado com Salomé, Wagner e Schopenhauer, de quem esperava muito, parou de esperar e escreveu em Humano, demasiado humano: “A esperança é o derradeiro mal, o pior dos males, porquanto prolonga o tormento”.

E foi além, afirmando que a esperança é o instrumento dos fracos. Os fortes não esperam, vão à luta, modificam o que conseguem modificar, deixam de lado o que não conseguem e não sofrem com isso. Aliás, um pensamento bem estoico, o do alemão genial.

Seria uma forma de substituir a esperança pelo otimismo – Enquanto o esperançoso espera, o otimista age.

Eu sei que pode parecer apenas um jogo de palavras, mas essa diferença pode ser determinante para conseguir o que se quer e para sofrer menos com o que não se consegue.  

Uma inscrição na porta do inferno de Dante mandava, a quem entrasse, abandonar todas as esperanças. Para Nietzsche, a esperança é a lenha que alimenta o fogo que queima a alma no inferno que é a vida.

Então, livre-se da esperança vã e adote o otimismo lógico, principalmente quando a tal esperança depende de outra pessoa.

Tenha um ótimo domingo e uma maravilhosa semana!

Adendos:

1 – No Rockfeller Center há uma estátua dourada do Prometeu antes de se dar mal. Aquele espaço simboliza que podemos ser e fazer o que quisermos, basta usar o poder do conhecimento e a força do fogo do trabalho. 2 – Meu amigo Mário Sérgio Cortella diz que o substantivo esperança não gera o verbo esperar, e sim esperançar. É uma maneira poética de dizer o que está acima.