Hobbes e Rousseau

Hobbes e Rousseau

Estes dois são considerados “inimigos conceituais”. Divergem na visão sobre a essência do ser humano e no tipo de governo ideal. Hobbes fala de um homem mau e de um governo autoritário. Rousseau advoga um homem bom e quer a democracia total.

Você entraria nessa discussão? De que lado você ficaria?

Talvez você apenas tratasse de colocar “panos quentes” na briga. Parece o mais lógico, claro. Mas, neste caso, você está querendo apaziguar a situação porque não gosta de briga ou porque acha que ambos têm uma parte da razão?

Bem, pra começo de conversa, Hobbes e Rousseau nunca se conheceram. Quando Rousseau nasceu, em Genebra, em 1712, Hobbes já tinha morrido há 33 anos, em Chesterfield, na Inglaterra.

Além disso, os dois têm mais convergências que diferenças. Ambos eram o que podemos chamar de “contratualistas”, ou seja, defendiam a necessidade de um “contrato social” para organizar e manter a ordem na sociedade.

Acreditavam também que houve um tempo chamado “estado de natureza”, e que a sociedade foi uma criação intencional e racional do ser humano para viver melhor.

A diferença está na visão que ambos têm sobre o homem no estado de natureza, anterior à sociedade. Como seria o “homem natural” afinal de contas?

Para Hobbes o homem natural era mau e egoísta, enquanto Rousseau acreditava em uma natureza humana mais dócil e benevolente.

Até aí tudo bem, afinal, todos temos direito à nossa opinião. O problema é que esses dois homens tiveram imensa influência na criação dos sistemas políticos, e justificam, à sua maneira, o poder do estado. E ambos influenciam sociedades e sistemas políticos até hoje.

Hobbes, em O Leviatã (1651), defende um governo forte e autoritário para manter a ordem. Dizia que, sem ele, o homem teria uma vida “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. Uau!

E Rousseau, em O Contrato Social (1762) diz que a vontade geral da comunidade deve ser soberana e que todos devem participar das decisões políticas. Não é à toa que ele influenciou a Revolução Francesa.

Pois é… acho essa discussão boa, mas, para que ela seja útil, devemos evitar o maniqueísmo. O ser humano é um poço sem fundo de complexidade e, com certeza, tem esses dois lados. É bom e é mau por natureza. Precisa da liberdade e também da autoridade, para viver bem, em seus limites.

Penso nisso cada vez que me cobram um estilo ideal de liderança. Não há. O que há são as circunstâncias. E ter uma visão clara sobre elas é o grande segredo para o bom posicionamento. Ótimo domingo. Grande semana!

Adendo:

Muito antes de Hobbes e Rousseau, Confúcio já discutia a questão do homem natural. Tanto é que teve discípulos que seguiram linhas opostas.    

Mêncio Mangtzú acreditava na bondade inata do homem. Já, para Hsun-tzu, o ser humano é mau, agressivo e indisciplinado. E ambos são confucionistas raiz.

Então… parece que até no Período das Primaveras e dos Outonos, muitos séculos a.C., já era difícil chegar a consensos.

E sempre será.