O homem de areia

O homem de areia

Natanael tem uma história engraçada. Engraçada, mas nem tanto… Quando sua mãe queria que ele e seus irmãos fossem para a cama, ela dizia:

– Crianças, já para a cama. O homem de areia já está chegando!

 E a criançada corria para o quarto, morrendo de medo. Ele nunca viu o tal homem de areia porque sempre obedeceu à ordem da mãe imediatamente. Ainda bem. “Deve ser horrível um homem de areia”, pensava ele.

Nunca viu, mas sempre imaginou um monstro cinza, sem feições definidas, desmanchando-se à medida que caminha em busca de uma vítima para engolir. 

Com o tempo, começou a introjetar monstros à espreita sempre prontos a afastá-lo de seus desejos. O homem de areia passou a ter uma presença constante em sua vida. Tudo o que acontecia de ruim devia ser culpa dele.

Por causa do monstro ele e seus irmãos não podiam ficar mais tempo com seu pai à noite na frente da lareira. E quando o pai morreu em um acidente de carro, ele teve certeza de que o homem de areia tinha alguma coisa a ver com essa infelicidade. E a vida seguiu com o homem de areia observando por cada fresta a conduta de Natanael.

Mas a idade contrapõe o imaginário com a realidade. Um dia, já adulto, Natanael finalmente perguntou à sua mãe quem era, afinal, o homem de areia.

– Quando eu falava do homem de areia estava dizendo que vocês estavam sonolentos e não conseguiam manter os olhos abertos, como se houvesse areia neles. O homem de areia era você mesmo, meu filho.

Natanael, que nessa altura já havia prendido os monstros no inconsciente, deu-se conta que sua mãe estava apenas fazendo uma brincadeira, mas sem querer criou uma experiência do impossível, uma imagem traumática duradoura.

Natanael passou boa parte de sua vida imaginando homens de areia à espreita atrás de cada porta, de cada situação e acontecimento de sua vida. Seu emprego, seus namoros, sua saúde, toda sua vida estava sempre ameaçada por esse inimigo invisível e impossível.

Natanael foi influenciado porque não teve maturidade para filtrar o real do imaginário, e nem poderia ser diferente.  Sua cabecinha infantil não soube separar o símbolo do simbolizado.

O problema é que essa incompetência emocional às vezes é reproduzida na vida adulta. Freud explica. Ainda bem que existe terapia…

Livre-se de seus “homens de areia”, e tenha um ótimo domingo e uma maravilhosa semana!

Adendos:

1 – A história de Natanael aparece em um conto do escritor alemão Ernst Hoffmann, que viveu no século 18.

O balé Quebra Nozes, de Tchaikovsky, também foi baseado em um conto seu: “O quebra-nozes e o rei dos camundongos”.

2 – Existes “homens de areia” do bem. Aqui, meu amigo Sérgio Prata, o artista mais completo eu conheço, aparece ganhando o prêmio da Air France por ter esculpido um John Lennon de areia no Guarujá em 1981. Ele tinha 15 anos e foi estudar arte na França graças a esse prêmio.