Raiva ou tristeza?

Raiva ou tristeza?

Você tem diálogos e frases prediletas do cinema? Eu tenho. Aqui vão algumas:

Nós sempre teremos Paris” (Rick para Ilsa, quando ela pergunta “E quanto a nós?”, na despedida, em Casablanca)

Se ficarmos juntos, não importa o que sair daqueles portões” (O gladiador para os gladiadores, em Gladiador).

Grandes poderes trazem grandes responsabilidades” (Ben Parker para seu sobrinho Peter, em Homem Aranha).

Estou tendo um mau pressentimento” (Luky Skywalker e Han Solo, várias vezes, em Star Wars).

Pois eu acabo de acrescentar mais uma à minha coleção:

É mais fácil ficar brabo do que ficar triste” (Adam garoto para Adam adulto em Projeto Adam).

Que tal?

O Projeto Adam é um filme de 2022 (Netflix), com Ryan Reynolds e Mark Ruffalo. Shawn Levy é o diretor e produtor, mas o que vale mesmo é o roteiro de Jonathan Tropper.

O enredo mistura ação, comédia e ficção científica, com pitadas drama e romance. Em vários momentos você parece estar assistindo Star Wars ou De volta para o futuro.

Não há nenhum spoiler em comentar que há dois Adams, um garoto de 12 anos na atualidade e um adulto, piloto de caça do ano 2050, porque a própria propaganda do filme já conta isso.

O homem do futuro volta, encontra sua versão adolescente, e os dois precisam encarar juntos a missão de salvar o mundo e de fazer as pazes consigo mesmos.

Um fato do passado faz com que o Adam adulto carregue um peso emocional sobre seu pai. Ele conserva uma raiva permanente, daquelas que atrapalham as relações e a própria felicidade.

E então ele ouve, de sua versão garoto, a frase citada acima, e começa a pensar, e sentir, diferente. E eu não tive como não apreciar esta pérola e colocá-la no colar de minha existência.

Eu li Freud e conheço a teoria dos mecanismos de defesa. Todos temos a propensão de substituir um sentimento pesado por outro menos doloroso. Acho que até ele…

Quanto à raiva, ela não é, necessariamente, uma emoção ruim. É impossível não sentir raiva diante de uma injustiça, uma maldade ou de uma guerra sem sentido.

Mas, analisando minhas raivas mais de perto, acho que muitas vezes elas estavam ali porque era mais fácil ficar brabo do que ficar triste. Ou sentir empatia, ou assumir responsabilidades, ou tratar de consertar as coisas.    

Nem sempre a emoção mais fácil é a melhor. Escolher a melhor tem um nome: chama-se inteligência emocional.

Para terminar, “I’ll be back” (Arnold, várias vezes, no Exterminador do futuro). Ótimo domingo. Grande semana!

Adendos:

1 – Caro doutor Paulo Hohmann, você sugeriu e eu acatei: o nome da crônica agora vem acompanhado de três pontinhos.

Pensando bem… você tinha razão.    

2 – Querida jornalista Margot Cardoso, a crônica tem, sim, relação com o tempo do cronista, só que às vezes isso fica transparente para o leitor. Esta, inclusive.

3 – Filme O Projeto Adan