# 116 – Turbulências

# 116 – Turbulências
Turbulências
(02/11/2025)

Fiz várias viagens de avião nesta semana, e tudo corria bem: embarques pontuais, pousos suaves, tempo bom. Aproveitei os voos para ler, escrever, cochilar. Até que…

Até que, em um dos trechos, o comandante, de repente, anunciou: “Senhoras e senhores, vamos atravessar uma área de turbulência. Por favor, mantenham os cintos afivelados”. Essa é uma situação corriqueira, e eu estou acostumado. Só que aquele corcovear aéreo foi um pouco maior que outros.

De repente, a calma deu lugar a uma atenção absoluta. Cada ruído do motor parecia mais alto, cada movimento do avião, mais perceptível. E o que antes era um espaço anônimo no céu se tornou, em segundos, o centro da minha atenção.

Foi então que me ocorreu que é exatamente assim com a vida.

Enquanto tudo corre bem, não nos ocupamos dela. Simplesmente esquecemos que estamos “voando”, sustentados por forças invisíveis, complexas e delicadas.

Não pensamos no corpo que respira, nas pessoas que nos amam, no trabalho que nos mantém, na rotina que dá forma aos dias. Só quando algo balança – uma dor, uma perda, uma incerteza – é que olhamos, assustados, para os mecanismos que nos mantêm no ar.

Talvez a turbulência tenha essa função: acordar a nossa consciência. Lembrar que voar nunca foi natural, e viver também não é. Tudo é espantoso, mesmo o que chamamos de normalidade.

Depois de alguns minutos, o avião estabilizou, a viagem continuou tranquila e o pouso foi bom. Eu retomei a leitura, mas algo havia mudado. Parecia que eu agora tinha uma nova consciência, de que um voo é como o milagre cotidiano. A vida é silenciosa em seus mecanismos, generosa em sua constância, e por isso mesmo, às vezes imperceptível como o ar que sustenta a aeronave.

Talvez a verdadeira sabedoria esteja em aprender a apreciar o ar calmo, e não apenas ocupar-se dele dentro de um cúmulo-nimbo. Porque viver é isso: atravessar o céu incerto com confiança, sabendo que a turbulência não derruba, apenas nos desperta.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica