Era o começo de 1973. Eu tinha recém passado para o terceiro ano da faculdade de medicina e, além das aulas, eu era monitor no laboratório de Fisiologia, e dava aulas de biologia em um curso preparatório para o exame supletivo.
Foi quando surgiu o convite para um teste de professor em um grande curso pré-vestibular. Era uma chance única. Uma espécie de pódio para professores iniciantes.
O teste seria dar uma aula para os donos do cursinho, famosos em suas áreas – física e literatura, e para mais alguns professores convidados, todos “macacos velhos” no palquinho da sala do cursinho.
Um professor desse tipo deve reunir algumas características que não são as mesmas de um colégio e, muito menos, da faculdade. Além de conhecer a matéria, e dominar uma didática perfeita, ele tem que ter “algo mais”, uma espécie de magnetismo que encante os alunos, prenda sua atenção, e os atraia para a sala de aula.
Por sorte eu podia escolher o tema da aula-teste. Foi quando um professor mais experiente me disse: “Escolha um assunto que faça teus olhos brilharem”. Foi quando optei, de forma natural, por um de meus temas preferidos: o Código Genético.
Entrei tremendo na sala de aula, e saí de lá certo de que seria aprovado, como realmente fui. Sábio conselho eu havia recebido…
Quando falamos sobre algo que nos encanta, parece que discorremos com a alma. O entusiasmo pela matéria transforma um professor em um artista. Ele não engana. Se comunica por inteiro, fala sorrindo, acredita no que diz. As palavras, frases e conceitos, naquela tarde, saíram por minha boca pulsando, como meu sangue saia do coração acelerado para as artérias, levando vida para o corpo inteiro.
Eu era, realmente, apaixonado pelo assunto. Exatamente 20 anos antes, em 1953, dois jovens pesquisadores, James Watson e Francis Crick, anunciavam ao mundo a descoberta da estrutura do DNA. Foi um daqueles raros momentos em que a humanidade parece dar um salto quântico na compreensão de si mesma. A vida, enfim, revelava seu código, sua caligrafia íntima, escrita em quatro letras: A, T, C e G.
Mas o que sempre me encantou nessa história não é apenas o que ela explica — é como ela o faz. O DNA é uma molécula de beleza incomum. Sua forma de escada retorcida, a famosa dupla hélice, tem algo de música e de dança: uma harmonia de repetições, proporções e simetrias. Nada ali é gratuito. Cada volta da hélice guarda um sentido, cada pareamento de bases é um gesto de fidelidade química, e cada cópia que a célula produz é uma celebração da vida replicando a si mesma.
Watson e Crick, ao verem o modelo tridimensional montado com arames e esferas, teriam exclamado: “Descobrimos o segredo da vida”. Mas talvez não soubessem que haviam descoberto também uma das expressões mais puras do belo — aquele que Platão via como reflexo do verdadeiro e do bom.
A elegância do DNA está em sua simplicidade funcional. Ele é, ao mesmo tempo, código e mensagem, instrumento e partitura. Tudo o que vive, do carvalho ao poeta, carrega a mesma espiral luminosa.
É por isso que, neste sábado, décadas depois, ao contemplar um DNA metálico, com 20 metros de altura, suspenso no hall de um edifício destinado a consultórios médicos em Curitiba, senti algo que transcende a estética: uma reverência.
Estava lá para dar uma palestra em um evento de dermatologistas. Se não houvesse o DNA suspenso, eu teria dado a aula do mesmo jeito, mas, com ele, ela ficou melhor. Assim como ficamos melhores diante de um quadro, de uma bela paisagem ou de uma música que nos emociona. Simplesmente precisamos da arte…
E, no caso, era mais que apenas arte. Era a lembrança de que a vida tem arquitetura e propósito, que a ciência pode ser bela, e que o belo, quando o reconhecemos, devolve sentido ao que fazemos.
Como naquela aula de 1973, percebi que o entusiasmo é a energia vital da transmissão. E talvez seja isso que o DNA ensine, silenciosamente, há bilhões de anos: a vida só persiste quando é capaz de se reproduzir com amor pela própria forma.
(09/11/25)