Belém do Pará está no noticiário internacional por causa da COP 30, e o tema central é a crise climática. Sem entrar no mérito, lembrei de uma visita que fiz, anos atrás, ao borboletário do Mangal das Garças, um dos orgulhos dos paraenses. Gostei demais da experiência.
É uma espécie de templo leve, em que o ar parece pintado por manchas coloridas. As borboletas voavam ao meu redor como se eu estivesse dentro de um quadro impressionista. Talvez Renoir ou Van Gogh, se tivessem asas, deixassem essas pinceladas coloridas espalhadas pelo ar.
Fiz amizade com o biólogo, que me levou para conhecer o local onde as borboletas nascem, uma espécie de berçário dos bichinhos coloridos. Acontece que as borboletas passam por um ciclo indireto de nascimento: do ovo à larva, da larva à pupa (ou casulo), e da pupa à forma adulta.
E a pupa das borboletas tem um nome luminoso: crisálida. É dentro dela que acontece a metamorfose silenciosa e radical. A lagarta praticamente se desfaz para depois se recompor em outra arquitetura. Nada sobra igual.
Não há relação etimológica entre “crise” e “crisálida”, mas há uma evidente afinidade semântica. E, filosofando um pouco, poderíamos dizer que crises são crisálidas existenciais: períodos suspensos, desconfortáveis, em que a forma antiga já não serve e a nova ainda não apareceu. Esse intervalo inquieto — pessoal, social ou ambiental — costuma doer. Mas dor, às vezes, é só o alarme interno avisando que algo precisa mudar.
A crise climática, discutida agora em Belém, é bem isso: uma crisálida planetária. Um chamado para abandonar padrões esgotados e criar outros, mais sustentáveis, antes que o planeta imponha uma metamorfose forçada.
E nossas crises íntimas? Profissionais, afetivas, existenciais? Todas pedem revisão. Se continuarmos exatamente como estávamos, permaneceremos presos ao mecanismo que nos conduziu ao impasse. A crise, vista desse ângulo, não é inimiga: é um convite urgente para a metamorfose necessária.
No final, a crise nos salva. Assim como a crisálida salva a lagarta de si mesma ao lhe oferecer asas, cada crise que experimentamos talvez seja apenas o preparo para uma forma mais ampla de existir. A beleza só chega depois. Mas chega. O segredo é não ter medo da crisálida, porque é lá dentro, no escuro, no apertadinho, é que estamos construindo as asas que vão nos levar além.