Certo dia a Melissa chegou em casa com uma pequena trouxinha feita com um cachecol felpudo. Carregava aquilo nos braços como quem carrega um bebê. Quando perguntei o que era, levou o dedo aos lábios pedindo silêncio, e foi para seu quarto levando junto o mistério cor-de-rosa.
Quando voltou para a sala, minha filha, estudante de psicologia na PUC do Paraná, me explicou: “É um Wistar. Estamos fazendo uns testes de maternagem na faculdade, e eu vou ficar com ele durante esta semana”.
Demorei um pouco para sintonizar, depois lembrei. Wistar é o nome que se dá a um ratinho totalmente branco de olhos vermelhos, normalmente criado em laboratório e utilizado em muitas experimentações, em medicina e em psicologia. Tem esse nome porque foi desenvolvido no Instituto de Psicologia e Biologia Wistar, na Universidade da Pensilvânia. Mas é mais conhecido por rato albino…
Eu já tinha sido íntimo desses simpáticos roedores. Quando estudante de medicina, estagiei no laboratório de Fisiologia, e uma de minhas funções, era cuidar do biotério, o que significava alimentar os ratinhos e limpar as gaiolas. Com o tempo, aquelas cobaias, para mim, viraram pets.
Agora era a vez de minha filha, e eu fiquei orgulhoso. E achei interessante o objeto de estudo: maternagem. “Combina com você” – disse para a jovem acadêmica de psicologia, que não havia sido uma menina afeita a brincar com bonecas, mas que sempre carregou no peito um coração muito afetivo, e, no rosto meigo, um olhar atento ao outro.
“Maternagem é diferente de maternidade” – explicou logo a cientista-mirim –, “Maternidade é o ato de ser mãe. Maternagem é acolher, cuidar e dar suporte para um bebê, ou para quem esteja precisando sentir melhor, ou se desenvolver. Todos precisamos de maternagem”.
“Ah” – respondi como quem aprende. “E o que eu faço com você é paternagem?”.
“Não. Essa expressão não existe”.
E, antes de voltar para seu quarto e cuidar da vida – e do rato – como para não me deixar desamparado, virou-se para mim com um sorriso e disse: “Você é um pai que faz maternagem mesmo”. E lançou-me um beijo…
Entendi… Esse foi apenas um dos ensinamentos que começavam, de uma filha atenta para um “pai adolescente”, como ela sempre me chamou. Melissa se formou a ganhou o mundo e a vida. Foi estudar na Inglaterra e não voltou. Hoje mora em Roterdã, estuda os efeitos terapêuticos de cogumelos, e escreve livros infantis sobre filosofia. Mãe das luminosas Isabel e Meghan, aniversariou nesta semana, e a saudade bateu forte no peito deste pai.
Aquele episódio do Wistar, hoje tão distante, revela algo essencial sobre a Melissa. Ela nunca foi barulhenta, expansiva ou dada a grandes alardes. Desde pequena era daquelas presenças que notamos mais pelo que transformam do que pelo que declaram.
Em minha imaginação, Melissa é filha da Lua. É luminosa do seu jeito. Sua luz se insinua pela borda da noite, não cega, não queima. Acalma, revela, tem a mansidão de que necessitamos para ter equilíbrio.
A lua nunca disputa com o sol, nunca exige protagonismo. Ela apenas acompanha, observa, influencia discretamente as marés, os ciclos, o sono e até o humor dos que vivem sob sua vigília silenciosa.
Talvez por isso Melissa sempre tenha sido tão atenta aos detalhes que os outros não veem. Lembro dela observando as dobras do comportamento, os silêncios entre as frases, a respiração de quem está à sua frente. É uma leitora de margens. Uma intérprete da sombra suave que contorna cada gesto humano.
Sinto que ela estudou psicologia para legitimar o que ela já sabia. Gente sempre foi sua matéria, evidenciada nas relações, na família, nos roteiros que aprendeu a escrever em Londres. Não cobra, não demanda, não se queixa. Apenas observa. E cuida. Exerce a maternidade mas pratica a maternagem. Com as filhas, com o rato albino com os amigos, e até comigo, sem que ela perceba.
Melissa sempre teve esse talento raro de acolher sem invadir, de orientar sem dirigir, de aquietar o mundo ao redor sem perder sua própria serenidade. Sua maternagem não é feita de abraços efusivos ou conselhos inflamados. É feita de presença. De escuta. De respeito profundo pelo tempo dos outros.
Uma espécie de cuidado lunar, que se dá por reflexo: ela ilumina porque devolve luz, não porque a produz em raios. E isso cria uma atmosfera de confiança que só os espíritos verdadeiramente luminosos conseguem oferecer.
Hoje, Melissa segue sendo essa lua calma que paira sobre nossa vida. Mesmo longe, sua luz chega. Mesmo em silêncio, sua influência se faz sentir.
Por isso, ao celebrar seu aniversário, eu celebro mais do que uma data. Celebro essa capacidade rara de tocar o mundo com delicadeza, de observar sem julgar, de compreender sem alarde, de cuidar sem pedir nada em troca.
Celebro a mulher que ela se tornou, e que talvez sempre estivesse ali, escondida na menina que um dia acolheu um pequeno Wistar como se fosse um filhote universal. Parabéns, Melissa – minha filha da lua.
Que teus ciclos sigam sábios, que tua luz siga mansa, e que essa tua forma silenciosa de iluminar continue guiando quem tem a sorte de orbitar ao teu redor.