Uma conversa com um executivo nesta semana me lembrou de um acontecimento com outro, há alguns anos. Falávamos sobre arte, e sua influência sobre a mente humana. A arte, afinal, não é um enfeite – é um dos pilares da formação de nosso pensamento.
Na época, durante um programa de desenvolvimento de lideranças, eu levava os participantes para algumas incursões. Uma delas era a Pinacoteca do Estado, o museu fundado em 1905, dedicado à arte brasileira do século 19 até a atual.
A missão era simples: cada um tinha que escolher uma obra do artista Almeida Júnior, o pintor de Itu, que colocava nas telas cenas do cotidiano, combinando rigor acadêmico europeu com a simplicidade do caipira do interior de São Paulo.
Como cada quadro parece contar uma história, a tarefa era dar continuidade a ela. Imaginar um roteiro a partir do momento representado na tela. Os personagens parecem silenciosos, mas podem guardar tempestades.
Entre eles, estava “Saudade”. Nele, uma mulher olha para um papel, que pode ser uma carta, uma notícia ou uma foto antiga. Seu rosto guarda uma expressão de profunda tristeza, como se cedesse ao peso da vida. O que teria acontecido? O que poderia acontecer a partir de então?
E coube ao diretor financeiro da empresa, um homem considerado frio, sempre racional, o guardião dos números, o dono dos gráficos e das certezas, interpretar a cena. E então assistimos a algo raro…
Ele criou um enredo inteiro, com personagens, ausências, reencontros impossíveis, erros que não se corrigem com fórmulas, saudades que não se amortizam nem depreciam. A história não tinha gráficos nem indicadores de performance.
Ele falou de amor, de perda, de esperança. Falou como se estivesse recordando, e não inventando. E ao final, num silêncio que abriu espaço para o essencial, o diretor chorou.
Não foi um pranto ruidoso, mas uma lágrima que desarmou a todos. Do tipo que brota de um subterrâneo onde ninguém costuma olhar. Foi ali que todos viram o que já sabiam e não admitiam: o líder, afinal, também é gente. Tem medos, angústias, sonhos frágeis, histórias inacabadas.
Curiosamente, depois daquele episódio, o clima no grupo mudou. Ficou mais leve, mais verdadeiro. É que a vulnerabilidade, quando respeitada, tem esse poder de reorganizar relações. Ela cria pontes que treinamentos, por mais sofisticados que sejam, não conseguem construir.
A arte fez o que a arte sempre faz: abriu portas para dentro. Desnudou aquilo que o cargo encobria, ampliou percepções, afinou a escuta. E lembrou a todos nós que liderança não é apenas competência técnica, mas disponibilidade afetiva – a coragem de tocar e ser tocado.
Há experiências que não cabem no planejamento estratégico, embora transformem mais do que muitos projetos de mudança organizacional. Afinal, a liderança também amadurece no território onde a lógica não manda – o da arte.
Naquele dia memorável, bastou um quadro pintado mais de um século atrás para lembrar o óbvio que o mundo corporativo insiste em esquecer: antes de liderar equipes, lideramos vidas – a nossa própria, inclusive.
“Saudade” continua na Pinacoteca, imóvel, enquanto nós seguimos mudando.
Mas se você o olhar com atenção, vai perceber que a dor, a memória e a esperança daquela mulher, de alguma forma, nos acompanham em silêncio. Naquele dia, o diretor apenas reconheceu a própria imagem na tela, e todos entendemos que liderar também é interpretar o quadro que a vida nos entrega.