#121 – Tenha uma turma

#121 – Tenha uma turma

Minha turma da faculdade é conhecida por dois motivos: pela quantidade de médicos que se transformaram em referência em suas especialidades, e pela incrível união da turma.

Além do inevitável grupo no WhatsApp, onde são compartilhados temas médicos e, principalmente, não médicos, a turma se encontra com a frequência possível. Neste final de semana tivemos o jantar de final de ano, na casa de um dermatologista que é famoso por sua contribuição à ciência e também à culinária. Catalão de nascimento, faz uma paella que arrancaria elogios do Ferran Adrià.

Esse encontro é um ritual quase litúrgico: repetido há décadas, sempre com a mesma mistura de boa mesa, vinhos selecionados, afeto, ironias antigas e aquela sensação rara de pertencer, que não se fabrica, apenas se colhe.

Enquanto conversava com os colegas-amigos, fui percebendo que o encanto não está apenas nas histórias que contamos, mas no fato de ainda querermos contá-las uns aos outros.

Uma turma, afinal, é isso: um agrupamento humano que existe porque deseja existir. Não há contratos, não há obrigações, não há metas. Há vontade.

No mundo corporativo, e mesmo na vida adulta, estamos acostumados a participar de grupos movidos pela necessidade – equipes, comitês, conselhos, times de projeto. Todos importantes, mas todos organizados por finalidade. A turma, não. A turma é organizada por afetos, por afinidades misteriosas, por uma química que escaparia até à neurociência.

Talvez por isso seja tão saudável.

A psicologia sabe que vínculos voluntários têm um poder restaurador que as estruturas formais raramente oferecem. Estar entre pessoas que nos acolhem pelo que somos, e não pelo que entregamos, funciona como uma espécie de realinhamento interno, uma lembrança de que pertencemos à humanidade antes de pertencermos às funções.

Numa turma, ninguém precisa provar nada. O tempo já provou.

E curioso: quanto mais os anos passam, mais a turma do Gloriosos [como, modestamente, nos chamamos =)] revela seu valor. Cada reencontro é um pequeno laboratório antropológico onde percebemos como mudamos e como continuamos os mesmos.

Reconhecemos no outro aquilo que fomos e, ao mesmo tempo, vemos refletido aquilo que ainda tentamos ser. É quase uma conversa entre passados e futuros, mediada por pessoas que testemunharam nossa formação intelectual, emocional e até ética.

A paella e o vinho, embora ótimos, não explicam totalmente o sabor da noite. O que nos alimenta mesmo é a pertencença – essa palavra que soa abstrata, mas que se materializa quando rimos das mesmas piadas de quarenta anos atrás e, ainda assim, descobrimos novidades.

Ter uma turma é um antídoto contra a solidão funcional que tantas vezes acompanha a vida moderna. Nos ajuda a lembrar que a existência não pode ser vivida apenas na lógica da performance. Podemos simplesmente estar juntos porque é bom estar juntos.

Por isso, caro leitor desta ousadia cronical, se me permite um conselho, desses que só a maturidade autoriza: tenha uma turma.

Não importa qual. Pode ser da escola, do esporte, da arte, da vizinhança, do ofício, da vida. Uma reunião de pessoas que se reconhecem e se querem bem sem motivo utilitário.

A vida continua complexa, mas certas coisas – como uma boa turma – seguem sendo simples e, por isso mesmo, são essenciais.

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".