Nestes últimos dias, assim como você que me lê, eu também já fui alcançado pelos primeiros acordes do tempo de Natal.
E enquanto procurava uma abordagem para esta crônica, do nada, lembrei de uma história que todo mundo conhece, mas que tem algo de mistério: a visita dos três reis magos e seus presentes enigmáticos.
Dizem que eles vieram de longe, guiados por uma estrela, trazendo presentes para o menino recém-nascido. E o que trouxeram? Ouro, incenso e mirra.
Sempre achei curiosos esses presentes. Ouro, tudo bem. Incenso, vá lá. Mas mirra? Quem leva mirra para um recém-nascido?
Foi então que pensei: talvez esses três presentes descrevam as três forças que sustentam o Natal até hoje.
O ouro todo mundo reconhece. É o brilho, a promessa, a imagem idealizada do Natal. As luzes, os cartões perfeitos, os filmes que terminam bem, as famílias que resolvem tudo antes da sobremesa. É o nosso desejo de que a vida seja mais leve do que ela realmente é. É o imaginário que nos sustenta e nos consola.
O incenso, por sua vez, não é o espetáculo, é a atmosfera. É aquilo que dá sentido ao evento. São os rituais, as tradições, o modo como repetimos gestos que não fomos nós que inventamos. Coisas como montar a árvore, fazer a ceia em família, ir à missa do galo, desejar Feliz Natal. O incenso sobe como linguagem. É o simbólico que nos conecta.
E então vem a mirra. A mirra é outra coisa… É amarga, escura, usada para aliviar dores e também para preparar corpos para o descanso final. Os magos, ao entregá-la, diziam silenciosamente: “Este menino não veio apenas para enfeitar o presépio; veio para ser parte de uma vida que vai muito além deste lugar.”
A mirra é a lembrança de que o Natal também é feito de ausências, saudades, cansaços, tensões familiares, expectativas não correspondidas. É o real que insiste em aparecer, justamente porque é pra lá de verdadeiro.
Sem ouro, o Natal perderia encanto. Sem incenso, perderia sentido. Sem mirra, perderia profundidade.
Três presentes para um recém-nascido. Três forças que nos atravessam em dezembro. Três camadas que, quando se entrelaçam, permitem que sobrevivamos inteiros à data, e até encontremos a alegria, intensa ou discreta.
É como nossa vida psíquica, que se sustenta justamente nesse trio: o imaginado que nos seduz, o simbólico que nos orienta, o real que nos desafia. E os três formam um nó que só se mantem se os três fios permanecerem juntos. É Lacan na ceia…
Talvez seja por isso que o Natal seja tão profundamente humano. Ele nos pede, de algum modo, que aceitemos o ouro dos nossos sonhos, o incenso dos nossos vínculos e a mirra das nossas verdades.
E, quando conseguimos carregar esses três presentes sem deixar nenhum cair, a data deixa de ser obrigação e se transforma num pequeno milagre possível – desses que não estão nas vitrines, mas aparecem, discretamente, em todos nós, em cada um a seu modo.