#123 – Um Natal artesanal

#123 – Um Natal artesanal

Todo ano o Natal chega com instruções implícitas. Como se houvesse um manual invisível dizendo o que dar, como sentir, quanto gastar e qual emoção demonstrar em público.

E todo ano a gente tenta obedecer, mesmo sabendo que não vai dar muito certo.

Este ano resolvemos fazer diferente. Eu e a Rosa Maria tomamos uma decisão simples, mas quase subversiva para os padrões da data: não comprar presentes. Fazer!

E fizemos geleia. Em casa. Na panela.

Com frutas, açúcar, tempo, conversa, alguma bagunça e a participação preciosa da Karine, que me ajuda nas lidas domésticas há anos. Entramos todos no espírito da coisa assumindo que Natal não é apenas um evento – é também um processo.

Experimentamos algumas receitas, compramos frutas no mercado, escolhemos um pote de vidro numa lojinha da Teodoro Sampaio, que pode ser útil depois, e fizemos um rótulo bonito e bem-humorado.

E criamos uma marca: “Doce Vida”. O nome é o desejo natalino para o presenteado, e, claro, revela o sabor do conteúdo. Mas tem mais uma inspiração: o filme La dolce vita, em que Federico Fellini faz uma crítica à sociedade romana que se entregava às festas e se esquecia de seus valores. Algo que se percebe claramente nos natais comerciais da atualidade.

Além da “marca”, o rótulo traz algumas informações bem-humoradas: que a geleia foi feita com frutas selecionadas, açúcar orgânico e carinho natalino. E que não contém glúten, químicos, culpa nem presunção. Sem conservantes, deve ser consumida em até 30 dias.

Confesso: não sabíamos exatamente no que aquilo ia dar.

Ao final, o que nos surpreendeu não foi o sabor, que, modéstia à parte, estava ótimo, mas a reação das pessoas presentadas. Ficou clara a percepção imediata de que o valor de um presente não está, definitivamente, em seu preço. O custo da geleia foi a intenção, o tempo, o trabalho manual, a presença. Coisas raras, atualmente, e facilmente percebidas.

De repente, o presente deixou de ser um objeto e virou uma narrativa curta: alguém pensou em mim. Talvez o Natal precise menos de produção industrial e mais de afeto artesanal.

Como vivemos um tempo em que tudo pode ser comprado, entregue no dia seguinte e esquecido logo depois, o Natal também embarcou nessa lógica. Tornou-se eficiente, rápido, previsível, e um tanto vazio.

A simplicidade da geleia nos lembrou que o afeto não é algo terceirizável. Ele exige tempo, atenção e alguma imperfeição.  O Natal ideal continua inalcançável: famílias perfeitas, mesas sem silêncios, histórias sem arestas. Mas isso é propaganda, não vida real.

Entretanto há um Natal possível: aquele que não tenta consertar o mundo, mas melhorar um pedacinho dele. Um Natal que não promete felicidade, mas oferece presença. Que não exige alegria performática, mas aceita humanidade real.

Talvez o espírito do Natal não esteja nos grandes símbolos, nem nas datas, nem nos discursos, e sim nas pequenas escolhas: ligar ou não ligar, ir ou não ir, fazer ou não fazer, abraçar ou não abraçar.

Este ano, para nós, ele coube em um vidro de geleia, e isso foi mais do que suficiente. Que seu Natal também encontre uma forma simples de existir, artesanal, possível e, se der, doce.

Feliz Natal!

Sem culpa. Sem presunção…

 

 

 

 

 

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".