“Poeta maldito” é uma expressão antiga. Parece que quem primeiro a citou foi o poeta francês Alfred de Vigny, em 1832, em uma peça de teatro. Para ele, les poète maudits, eram malditos para os poderosos, porque os incomodavam, provocando mudanças na sociedade.
E eles faziam isso através de seus poemas, mas também por seu estilo de vida, que desafiava as normas e as regras, rejeitando o estilo de vida burguês. Os principais malditos são os simbolistas franceses do século 19, mas o movimento entrou para o 20 através dos vanguardistas.
Eu conheci um deles. Fomos colegas em um cursinho, em que ele era um professorzaço de história, e, eu, um professorzinho de biologia. Eu recém tinha entrado na faculdade. Ele já tinha largado a dele.
Eu tinha uma namoradinha, ele já tinha terminado o primeiro casamento. Eu estava escrevendo uma apostila. Ele já tinha poemas no Brasil. Eu praticava natação. Ele era faixa preta de Judô. Eu era um ucraniano do Bigorrilho, e ele um polaco do Pilarzinho.
Seu nome? Paulo. Paulo Leminski Filho.
Leminski era apenas cinco anos mais velho que eu, mas já tinha vivido uma vida intensa, que só os malditos sabem viver. Apesar das diferenças, fomos amigos por um tempo, e ele me ajudou a me tornar um professor. Foi ele que me disse que minha aula não tinha que agradar aos alunos. Tinha que agradar a mim. O resto seria consequência. Como foi…
Nesta semana eu estava em Curitiba e fui visitá-lo. Ou melhor, fui ver o Espaço Paulo Leminski, que conta sua história e mostra um pouquinho de sua obra, lá na Rua da Música, que liga a Ópera de Arame à pedreira que leva seu nome, local de grandes espetáculos de nível mundial.
Se você vem a Curitiba, não deixe de conhecer. Se você é de Curitiba, saiba que lá os curitibanos não pagam ingresso.
Como eu tinha que escrever a última crônica do ano, tratei de buscar inspiração em Leminski, afinal, muitos poetas escreveram sobre o ano novo, os ciclos, a esperança etc. Não achei um poema. Mas encontrei quase uma frase. E, como sabemos, para um mestre em haicais, uma frase já é um poema. Disse ele:
“ano novo
anos buscando
um ânimo novo”
É isso, pensei… De que adianta um ano novo se o ânimo for velho, surrado, cansado, desmilinguido, “desanimado”?
Em latim, animus significa alma, espírito. Quando estamos animados, é nossa alma que vibra, e essa vibração se transforma em movimento, da mente ou do corpo, e alguma obra é produzida.
Lá na Bíblia, João diz que no mundo teremos aflições, lutas e problemas, mas, para vencer o mundo, só precisamos de uma coisa: conservar o bom ânimo.
Então, passando por Paulo e por João, a última crônica de 2025 vem só para desejar a quem a ler (e também a quem a esquecer), um feliz, vibrante, valente, criativo e estimulante ânimo novo!