#125 – Aquilo a que você resiste, persiste

#125 – Aquilo a que você resiste, persiste

Por coincidência (ou não…) terminei um ano vendo a exposição de um pensador e comecei o novo vendo outra. Em Curitiba fui ver Leminski, que rendeu a crônica 124 – Feliz Ânimo Novo. E no MIS, em São Paulo, fui ver A alma humana, você e o universo de Jung.

Aquela foi lírica, feliz, me trouxe boas lembranças, pois eu conheci o poeta em minha juventude, e suas frases são sempre um convite à festa da vida. Entrar no universo de Jung é diferente.

Logo na chegada, uma frase que inquieta:

O mundo lhe perguntará quem você é.

E se você não souber, o mundo lhe dirá.

Ou seja, meu caro, ou você conhece e domina seu mundo interior ou o mundo exterior vai fazer de você um joguete. Segundo Jung, claro. Mas é bom prestar atenção nesse suíço que enfrentou até Freud.  

A exposição é um misto de psicologia, arte e provocação. Logo que entra você se vê em uma seção chamada Sintomas, e descobre que os mesmos, sejam físicos, psíquicos, sociais ou ambientais, são manifestações do inconsciente.

E então se dá conta que há dois caminhos para sair dali. No primeiro você tenta se livrar dos sintomas rapidamente. No segundo você tenta compreendê-los. Se optar pelo primeiro, voltará ao mesmo lugar. Se for pelo segundo, vai avançar, ainda que não seja fácil.

Vai visitar a área dos sonhos, dos arquétipos, dos mitos, das personas, da alquimia, vai fazer associação de palavras e entrará em contato com o Ego. Um misto de encanto e de angústia acompanha o visitante durante toda a visita.

Na saída lembrei que era dia 2 de janeiro, estava começando mais um ano e, como bom humano que sou, eu já carregava uma série de propósitos de mudança. E então vem a frase junguiana que dá título a esta crônica:

Aquilo a que você resiste,

persiste

E cai como um balde de água fria. Eu quero abandonar aquilo que me incomoda, me atrapalha, me envergonha ou simplesmente me cansa. Mas eu resisto…

Resistir, aqui, significa negar. Fingir que não existe. Empurrar para fora do campo da consciência aquilo que nos ameaça, incomoda ou contradiz a imagem que fazemos de nós mesmos.

Nós adoraríamos que fosse possível esquecer a bagunça do quarto simplesmente fechando a porta. Mas não é assim que funciona. É preciso estender a cama e arrumar as prateleiras e as gavetas.

Pensei, então, como foi curioso começarmos um ano novo justamente assim: sendo convidado a olhar para dentro, quando tudo ao redor insiste em nos puxar para fora. Mas saí da exposição optando pela segunda porta. Pelo exercício do autoconhecimento, procurando ser honesto, especialmente comigo mesmo.

Afinal, junguianamente falando, quem olha para fora, sonha, quem olha para dentro, acorda.

E, mais uma vez, “feliz ânimo novo!”.

 

 

 

 

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".