Ontem fomos almoçar em Caiobá, o belo balneário do pequeno litoral do Paraná. A intenção era conhecer um local que tem um belo nome: Bistrô Vivere Parvo. Emprestado do francês, bistrô é um restaurante pequeno, informal, que costuma oferecer uma comida autoral e uma experiência única ao freguês.
Missão cumprida: as ostras e a moqueca estavam ótimas e a experiência foi surpreendente (como veremos…).
Vivere parvo é uma expressão latina que significa algo como viver feliz com pouco, com uma simplicidade racional. Seu oposto seria vivere magnus – viver grande, com abundância e complexidade.
O assunto me interessa. Durante muitos anos escrevi para uma revista que se dedicava ao assunto, e queria ser uma espécie de guia de como viver em um mundo cada vez mais complexo. Preconizava a simplicidade, e deixava claro que ser simples não é negar a complexidade, e sim aprender a lidar com ela.
O tal restaurante é um bom exemplo. Construído na encosta de um morro, teve que se adaptar ao declive acentuado, e tirou proveito da beleza que o entorno proporciona. Não há dois ambientes no mesmo nível. Tem escada até dentro do banheiro, e a cozinha manda a comida para o salão através de um pequeno teleférico. O efeito plástico é fantástico. O morro, o céu e o mar se encontram de maneira absolutamente natural, e somos rapidamente transformados em cabritos monteses felizes.
Enquanto olhava para o entorno algo me chamou a atenção: uma construção mais para cima, feita de concreto, tinha, nitidamente, a forma de um disco voador. Quando perguntei ao proprietário, Marcelo, sobre o que era tal instalação, ele me explicou que ali seria sua casa, e me convidou a visitar a obra.
E lá fomos nós, enfrentando mais uma coleção de escadas. À medida que subíamos, dezenas de esculturas de ETs de vários tamanhos e formas nos observavam com olhos grandes, criando uma atmosfera surreal. Fiquei então sabendo que o restaurateur era também um escultor, além de surfista e empreendedor. E ufólogo, presumi…
Visitamos a obra com muita curiosidade, simpatia e boa risadas. A casa tem tudo o que deve ter: sala, cozinha, quartos, banheiros. Só que parece um disco voador. Quando indaguei meu novo amigo sobre o formato, esperei uma exposição ligada a zonas de energia, atração cósmica, filiais da zona 51. Mas sua explicação foi outra: “É o formato que melhor resiste ao vento”.
Bingo! Uma casa perfeitamente aerodinâmica, sem saliências, sem cantos, sem telhado para ser arrancado em uma tempestade, faz todo sentido no alto de uma montanha. E então fiquei sabendo que o jovem empresário da gastronomia litorânea sequer acredita em discos voadores, seres extraterrestres, e jamais se ocupou em discutir se existe vida em outros planetas ou não. Seu cotidiano é terreno e pragmático. As esculturas ao redor são atratoras de curiosidade e de clientes. E pronto…
A vida parva do Marcelo é a vida que aceita a vida como ela é.
Não reclama da topografia acidentada, aproveita as escadas para fortalecer as pernas, coloca e bela vista da baixada paranaense no cardápio do restaurante, e constrói uma casa em forma de disco voador para que ela não levante voo durante as tempestades que vêm do mar.
Fim do enigma. Não do disco voador, mas do que realmente significa ter uma vida parva – usar bem os recursos disponíveis, encontrar soluções simples, aproveitar os altos e baixos da existência, e encontrar motivos para rir, inclusive de si mesmo.