#127 – Eu, Holden Caulfield

#127 – Eu, Holden Caulfield

Algo que me intriga: o sucesso sustentável do livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D Selinger, publicado em 1949.

O tempo passa, as gerações se sucedem, e as pessoas continuam se identificando com o Holden Caulfield, suas angústias pessoais e suas críticas ao modelo social, seja ele qual for.

Entender o furacão de emoções do garoto de 16 anos não é difícil. Expulso da escola, brigado com os amigos, recusado por uma garota, tem que ir para casa e enfrentar os pais. Resolve então dar um “rolê” pela cidade durante o final de semana, metendo-se claro, em mais confusões.

Até aí, tudo bem. Minha dúvida é sobre o fato de que mesmo os adultos contemporâneos continuam se vendo no garoto do pós-guerra andando pelas ruas de Nova York, culpando o mundo e reclamando que está cercado por “phony people” – pessoas falsas e não confiáveis.

Será esta uma condição humana natural e permanente? A vitimização e a revolta fazem parte até das personalidades adultas e, pretensamente, estruturadas? Estaria a diferença entre uma criança e um adulto apenas na resposta que damos a este estado?

Em caso de dúvida, pergunte-se ao Sigmund.

Freud tinha pouca paciência com ilusões civilizatórias, e uma dela é a de que nos livramos do mal-estar à medida que amadurecemos. Afinal, nosso psiquismo não evolui em linha reta. Ele se organiza em camadas, enfrentando momentos de tensão, lidando com perdas, com mudanças inesperadas. E a cada vez nosso Holden interior volta, às vezes mais furioso.

Holden não representa apenas a adolescência. Ele representa o sujeito em passagem, e este é nosso estado permanente. Nas passagens da vida há postos de cobrança de pedágios emocionais, e nem sempre temos as notas necessárias e suficientes na carteira de nossa personalidade. Pelo menos naquele momento…

São os adultos que enfrentam a perda das ilusões, os casamentos desfeitos, as falências, as crises do mercado e, claro, a rápida passagem dos anos e a chegada – às vezes precoce – das marcas do envelhecimento. Pois é, viver implica em fazer renúncias, conviver tem a ver com enfrentar conflitos, desejar traz junto o risco da frustração.

Realmente não há nenhuma promessa de conforto emocional duradouro em nossa existência. Se alguém a faz, é um charlatão.

O adulto não queria, mas ele também está mudando, e mudar dói, evoluir cansa, e abandonar versões antigas de si mesmo nos coloca em estado impermanente, mas alternado, de luto. Mas isso não é um problema. Problema seria não ter esses dias, pois estaríamos condenados à mesmice e à mediocridade.

Talvez seja isso que o livro de Salinger nos oferece tantos anos depois: a constatação de que ter dias de Holden não nos desqualifica como adultos, apenas nos lembra de que seguimos em movimento. Holden não se cura, não amadurece de repente, não se torna aquilo que o mundo espera, mas também não se entrega, nem endurece.

No fim, ele apenas observa sua irmã Phoebe girar no carrossel, para de querer “salvá-la” e a deixa girar à vontade, mesmo sob a chuva. Ele de repente entende que crescer implica risco e sofrimento, e que ninguém será poupado disso ao longo de toda a vida.

Freud diria que esse não é o fim do conflito, mas o início da elaboração, e isso talvez seja o máximo de sanidade que se pode pedir. Aceitar que a vida não nos dá garantias emocionais, mas oferece algo mais discreto e até mais valioso: a possibilidade de continuar, mesmo sem certezas, mesmo com dias ruins, mesmo carregando um pouco de rebeldia e desencanto no bolso.

Se ainda nos reconhecemos em Holden Caulfield, isso não é sinal de atraso emocional. É sinal de que não perdemos a sensibilidade no caminho, e isso, num mundo que insiste em nos endurecer, não é um defeito, e, sim, uma forma de maturidade que sabe ser alegre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".