#128 – Os espaços vazios da biblioteca

#128 – Os espaços vazios da biblioteca

Ontem li o livro O sentido da Vida, do psicanalista Contardo Calligaris, falecido em 2021. Ele, obviamente, não pretende explicar qual é o sentido da vida, apenas aponta alguns caminhos a trilhar.

Imagino quantas vezes esse assunto apareceu em seu divã, ocupado por pacientes desejosos por entender a finalidade de nossa existência como forma de diminuir seu sofrimento.

Não foram poucos os angustiados pensadores – então chamados filósofos – que apresentaram sugestões sobre o assunto.

Aristóteles acreditava que o sentido está na razão e na virtude. Platão relacionou o sentido com a busca da beleza, da verdade e da bondade. Agostinho falou que essa inquietação só se acalma em Deus. Kant retirou o sentido do céu e o colocou na ética humana. Não sabemos por que estamos aqui, mas sabemos como devemos agir, e isso talvez isso baste, pensou o alemão.

Para seu conterrâneo Schopenhauer o sentido era aceitar o ciclo interminável de desejo e frustração, e outro, Nietzsche, mais ousado, declarou a morte de Deus e concluiu que não há sentido pronto, e cabe a cada um criá-lo. E alertou que você vai sofrer nessa tentativa.

No século XX, essa angústia ganhou nome próprio: Jean-Paul Sartre. Ele disse que a existência precede a essência, ou seja, que não há sentido prévio. Você nasce, cresce, cria consciência, vai fazer escolhas, e elas vão dar sentido à tua vida. Ou não – essa é a nossa angustiante liberdade. Camus discordou apenas em parte: a vida é absurda, não responde às nossas perguntas, mas ainda assim merece ser vivida.  Já Viktor Frankl percebeu que a vida pode ter sentido mesmo no sofrimento, se você construir seu futuro a partir do que acontece com você.

Contardo aborda o assunto contando um pouco de sua história ao lado de seu pai, um médico culto, antifascista convicto, e, durante um tempo, prefeito de uma pequena cidade perto de Milão. Moravam em uma casa forrada de livros e, certa vez, o jovem futuro psicanalista perguntou ao pai por que, em sua biblioteca, havia alguns “buracos” entre os livros. Não seria melhor simplesmente aproximá-los?

Foi quando seu pai lhe explicou que existem livros que nos iluminam, e existem os que apenas ocupam os buracos nas estantes. Sua mensagem é irrelevante, ele serve apenas para não deixar o espaço vazio, quase como um objeto de decoração. Não vale a pena guarda-los.

O Dr. Calligaris preferia deixar um espaço vazio na estante a conservar um livro vazio ocupando um espaço na estante.

A cada vez que fazia uma arrumação (quem gosta de livros faz isso periodicamente) novos espaços vazios surgiam, pois ele se livrava de alguns volumes. O livro do Contardo não diz isso explicitamente, mas sugere que podemos ver nos espaços vazios algum sentido para nossa existência. Imaginar como preenchê-los, onde procurar o que nos preenche e como devemos agir nessa empreitada, seria o suficiente para nos acalmar nessa busca do sentido.

Os espaços na prateleira não são sobre livros. São sobre livros também. Mas seu simbolismo é sobre nossa subjetividade. O que nos falta? O que nos preenche? O que no move e justifica nossa luta por existir?

Pois é, muitas vezes preenchemos esses espaços vazios com lombadas que nos parecem as mais belas. Mas, com frequência, eles se esvaziam espontaneamente, como nos avisando que a vida é dinâmica, que a prateleira precisa ser reorganizada sempre, e que a poeira do tempo deve ser espanada todos os dias, pois, se acumulada, nos adoecerá.

Contardo termina o livro revelando que o pai, com sua alma sensível e inquieta, após ter lido muito, estudado bastante, vivido, lutado, acreditado, desistido, persistido, sofrido e se alegrado, abdicou da eternidade suspeita, e decidiu que o sentido da vida é a própria vida concreta. Essa que vivemos, e da qual faz parte, também, morrer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".