# 47 – A banalidade do bem

# 47 – A banalidade do bem
A banalidade do bem
(16/06/2025)

Com os olhos fechados eu deixei a água quente escorrer sobre meu rosto. Aquela leve dor de cabeça, que talvez seja resultado do vinho que tomei com amigos na noite anterior foi se desfazendo. Podia ter tomado um pouquinho menos, pensei. E continuei quieto sob a ducha reconfortante.

E também pensei na agenda do dia. 

O sol mal tinha aparecido no leste e eu já estava preocupado se, antes que ele se fosse pelo oeste, eu teria feito tudo o que tinha que fazer naquele dia. Por um instante amaldiçoei a agenda cheia. E me preocupei com as contas a pagar. E me irritei com o congestionamento possível, com o atraso provável. Problemas… 

E quis pular o dia, e ir direto para a noite e, quem sabe, tomar mais vinho.

De repente um pouquinho do sabonete irritou o canto de meu olho, e eu senti que ele estava me chamando a atenção: 

“Ei, volte para cá, vivente. Curta o banho!”. 

Sacudi a cabeça e abri os olhos olhando para baixo. Meus pés estavam lá, firmes. Sobre o tornozelo esquerdo a pequena saliência de um parafuso colocado quando quebrei o pé andando de moto. Então voltei ao prazer do banho. 

E pensei nele. Não no banho: no prazer. 

E me dei conta que aquele momento era um privilégio que eu não costumava valorizar, pois para mim ele era normal, corriqueiro. Como esticar as pernas ao acordar, como tomar o café da manhã, e até como respirar. Normal, corriqueiro, banal. Um direito natural, disse para mim mesmo.

Foi quando lembrei que há gente que não tem banho, nem cama, nem café da manhã. Tem gente que não tem ar…

O que era banal para mim seria um privilégio para tantos, talvez a maioria. Invertendo a tese da Hannah Arendt, eu estava anestesiado pela banalidade do bem, reclamando da vida. 

Eu sou o peixe que não percebe a água que o mantém vivo. Nada deveria ser banal na vida. Tudo é conquista ou dádiva, e devemos ser gratos por ter recebido ou por ter tido a chance de conquistar. 

Decidi que começaria os dias, com ou sem banho, mas trocando as queixas e as preocupações pela gratidão. E não importa a quem, pois a gratidão é um sentimento, mas também é uma forma de encarar a vida. E viver melhor. 

Um ótimo domingo e uma semana feliz!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica