A culpa do Newton
(22/10/2023)
Meu filho Erik tem 8 anos. E, como sabemos, as crianças de hoje têm acesso precoce à informação e ao conhecimento. Ele, por exemplo, tem especial interesse por geografia e astronomia.
Faz perguntas do tipo “porque a Terra tem uma lua só, e Saturno tem mais de cem?”. Eu nem sabia do fato, quanto mais saber o porquê.
Recentemente ele andou lendo sobre gravidade e descobriu Newton. Ficou encantado com a história da maçã, e assumiu que Newton “inventou” a gravidade.
Consequência? Agora, quando ele derruba algo, ou cai, encontra a melhor desculpa: “a culpa é do Newton”. E sorri maroto…
OK, ele tem oito anos. Inteligente e brincalhão, é um menino de seu tempo. E ainda não entendeu bem o conceito da responsabilidade.
O duro é ouvir justificativas parecidas com essa de gente adulta.
Certa vez, foi constrangedor ver um executivo justificar o insucesso do lançamento de um produto pelos “hábitos do consumidor”, e ouvir do presidente um inquisidor “e você não previu isso?”.
No mundo do futebol, a última é a do Ronaldo do Cruzeiro, culpando a torcida, que está abandonando o estádio, pelo mau desempenho do time. Neste caso, há uma óbvia inversão entre “causa” e “efeito”.
Sempre há uma causa externa e uma causa interna para tudo o que nos acontece.
O correto é dar o crédito merecido para ambos os fatores, mas nós temos uma imensa tendência para valorizar um e minimizar o outro, de acordo com nossas conveniências.
Nossas conquistas atribuímos às nossas virtudes; já nossos fracassos não têm nada a ver com nossos defeitos, e sim com fatos alheios a nós: as traições do destino.
Eu mesmo já fiz isso muitas vezes, reconheço. Ninguém está livre de ter esse comportamento transferidor de responsabilidades.
O problema é ele virar padrão. Quem nunca assume responsabilidade pelos insucessos, carrega sempre os sentimentos de frustração, de impotência e de injustiça.
Frustração porque vê seus planos falharem. Impotência porque, como não se atribui a culpa, sente-se incapaz de agir sobre seu próprio destino. Injustiça porque não se considera merecedor do infortúnio, uma vez que, em sua opinião, não é ele o autor do mesmo.
Cuidado. Nunca culpe algum Newton qualquer. Assuma que você derrubou a maçã. É melhor para tua imagem.
Ótimo domingo! Grande semana!
Adendo:

Nesta semana minha amiga Margot Cardoso lançou o melhor livro de acesso à filosofia que eu já li: A Filosofia Resolve – Como Os Filósofos nos Ajudam a Solucionar Problemas e a Viver uma Vida Melhor.
Estive no lançamento em São Paulo. Em Lisboa, onde mora, a jornalista/filósofa já faz sucesso há tempos.
Em próximas crônicas vou comentar as boas passagens do livro.