# 70 – A Economia do Cuidado

# 70 – A Economia do Cuidado
A Economia do Cuidado
(24/11/2025)

Sim, Margaret Mead é polêmica. 

Do tempo que morou na Polinésia, ela concluiu que a adolescência turbulenta não é um fenômeno natural e universal, mas cultural, e essa afirmação gera debates até hoje. 

Foi uma das principais vozes do feminismo, casou-se três vezes, teve uma filha, mas também viveu com mulheres. Filha de intelectuais da Filadelfia, estudou psicologia e depois antropologia. Trabalhou no Museu de História Natural e foi professora na Universidade de Columbia até o fim da vida. 

Goste-se ou não de Margaret, é dela uma observação primorosa:

O primeiro sinal identificado da civilização é um fêmur fraturado e curado”.

A maioria dos autores concorda que as primeiras civilizações começaram a surgir por volta de 3000 a.C., em regiões férteis dos rios, como a Mesopotâmia, o Egito, o Vale do Indo e a China. Nesses lugares encontramos sinais de organização social, cidades, ferramentas, divisão de trabalho. 

Mas o fêmur da Margaret tem 15.000 anos. 

Vamos entender: na natureza selvagem, um animal com uma fratura grave dificilmente sobrevive. Um osso quebrado o incapacita de fugir de predadores, buscar alimento ou se proteger. 

Além disso, ele atrapalha os demais, e é, simplesmente, abandonado. Por isso, o fato de um fêmur ter sido encontrado curado indica algo novo: alguém protegeu e alimentou aquele indivíduo enquanto ele se recuperava. 

Este seria o primeiro sinal da civilização. Não as armas ou as ferramentas, nem as cidades e a domesticação dos animais. Mas o cuidado… O ato de cuidar do outro é o marco da civilização segundo a antropóloga americana. E é difícil discordar dela. 

Se eu estou escrevendo este texto, e você o está lendo, significa que alguém cuidou de nós antes. Na verdade, fomos, e somos, cuidados por centenas de pessoas. A mãe foi apenas a primeira. 

O cuidado está na origem da civilização, e está na base do progresso. Atualmente usa-se a expressão Economia do Cuidado, para representar o impacto que o ato de cuidarmos uns dos outros tem sobre a geração de riqueza. E virou tema da gestão. 

O cuidado não apenas sustenta a vida, mas também dá sentido à existência humana. Nossa verdadeira força não está em nossos feitos tecnológicos ou no domínio do ambiente. Mas na habilidade excessivamente humana de olharmos um para o outro, e simplesmente dizer: “Eu estou aqui para você”.

Um ótimo domingo e uma produtiva semana a todos!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica