# 34 – A montanha, a vida e a perspectiva

# 34 – A montanha, a vida e a perspectiva
A montanha, a vida e a perspectiva
(14/03/2024)

Sou um esquiador tardio, mas, como sempre estive ligado com esportes, aprendi relativamente rápido, segundo meu instrutor suíço, o Tanguy, um desses jovens que aprenderam a esquiar antes de começar a andar. 

– Mantenha os esquis paralelos para deslizar, e aproxime as pontas para frear – me disse ele, na primeira instrução.

– OK, respondi – achando fácil. Mas o que se seguiu mostrou que não era bem assim. Eu ficava o tempo todo olhando para os esquis para conferir sua posição. 

– Você não pode olhar para os esquis, tem que olhar para frente. Senão como vai saber para onde está indo? 

– E como vou saber se os esquis estão na posição correta? 

– Você tem que senti-los. O esqui é como a vida, você tem que sentir o presente, mas manter o olho posto no futuro

Uau! O professor de esqui era um filósofo. E dos bons, pois a vida é assim mesmo. É um eterno movimento, belo e perigoso, como descer com velocidade uma ladeira gelada. 

Mas o pior estava por vir. No último dia da terceira temporada eu estava me sentindo cheio de confiança. Tinha vencido todas as pistas propostas pelo Tanguy, e resolvi, por conta, arriscar um pico mais alto.

Eu estava em Villars sur Ollons, na Suíça francesa, e para onde você olha parece estar vendo uma propaganda de chocolate ao leite. Só depois percebi que toda essa beleza pode ser perigosa. 

Ao começar a descida eu não conseguia tirar os olhos das montanhas distantes, entre as quais o Mont Blanc, a maior elevação dos Alpes, que tem uma face na França e outra na Itália. Eu estava na Suíça e podia vê-la. 

E fiquei hipnotizado por alguns instantes. 

Eu não estava mais olhando para meus pés. Mas também não olhei para a pista. Mirei o além. A consequência foi que não percebi a chegada de uma curva. Ao tentar frear, caí feio, e voltei para o Brasil de gesso e muletas. 

Ampliando o conceito do instrutor-filósofo, temos que sentir o presente, imaginar o futuro e manter o olho posto no percurso. Definitivamente, na vida não dá para perder a perspectiva. O tombo pode ser feio. 

Um ótimo domingo e uma grande semana!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica