# 48 – A rosa louca

# 48 – A rosa louca
A rosa louca
(23/06/2024)

Tão bom viver dia a dia…

A vida, assim, jamais cansa.

Em Porto Alegre, o centro histórico foi duramente afetado pela enchente. Na rua dos Andradas, um prédio foi especialmente atingido: a Casa de Cultura Mário Quintana.

O edifício, antes, foi o Hotel Majestic, que, inaugurado 1933, teve seus dias de glória, hospedou políticos, milionários e artistas, até que decaiu com o próprio bairro, foi comprado pelo estado em 1980 e virou Casa de Cultura em 1990. 

E foi ali que nosso poeta morou, entre 1968 e 1980. Seu quartinho está lá. Pode ser visto através de uma parede de vidro. A cama de madeira com os lençóis jogados, a escrivaninha, o abajur, o cinzeiro com dois tocos de cigarro, o retrato de Chaplin e o garoto na parede. 

Impressionante como o homem pode ser maior que seu lugar. 

E foi lá que eu li o poema Canção do dia de sempre, que começa com as duas frases que abrem esta crônica. Juro que demorei a entender. Seria ele um poema à mesmice, ao cotidiano e conformismo? Quem conhece Quintana sabe que ele não é assim.    

De fato, esse verso parece fazer referência a uma existência cotidiana sem sobressaltos ou mudanças, rotineira e monótona, apesar de confortável. Mas, a primeira impressão se desfaz quando continuamos a ler: 

Mas a rosa louca dos ventos está presa à copa do chapéu.                    

Nunca dês um nome a um rio: sempre é outro rio a passar. 

Nada jamais continua, tudo vai recomeçar!

Pois é, este poema é como a vida de todos nós, que muda porque queremos que mude, ou muda quando menos esperamos que mude. Mas que muda, muda… 

A Rosa dos Ventos, que provavelmente surgiu na Grécia, é uma representação dos pontos cardeais, aparece nos mapas e faz parte da bussola. Os navegadores a usam faz tempo. Quando Quintana acrescenta o adjetivo “louca”, ele lembra a imprevisibilidade e a variedade de direções que a vida pode tomar. 

E o poeta continua:

E sem nenhuma lembrança das outras vezes perdidas.

Atiro a rosa do sonho nas tuas mãos distraídas. 

Quando distraídos, imaginamos que tudo será como sempre foi. E se você quer ficar como está, saiba que a vida tem outra ideia. 

A vida, como os ventos, muda de direção sem avisar ou pedir licença. Para continuar, e não afundar, só há uma coisa a fazer: ajustar as velas. E apreciar as rosas pelo caminho…

Um ótimo domingo e uma semana feliz!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica