# 23 – A um passo do futuro

# 23 – A um passo do futuro
A um passo do futuro
(31/12/2023)

Gosto de Boston. Moraria lá com facilidade. Tirando os extremos de temperatura no inverno e no verão, a cidade é tudo de bom. Muita arte e cultura, museus, cafés, Harvard, MIT, a história da independência sempre presente, o Tea Party, os remadores do Charles River, os Boston Red Sox. Além de um certo ar de aristocracia discreta em todos os lugares.   

Entre tantas coisas, uma das que mais ficaram em minha memória foi uma experiência quase surreal que liga o passado ao futuro. 

Foi na área de Back Bay, um bairro tradicional que preserva o urbanismo projetado no século 19, cujas casas vitorianas de tijolos vermelhos formam um espetáculo à parte. 

No final dos anos 1960 uma quadra inteira foi adquirida ali para que se levantasse um edifício super moderno. Pronto… Começaram as polêmicas.

Havia os que defendiam a modernização do bairro e da cidade, e os que achavam que seria uma afronta à paisagem e à história do local. Como o progresso é uma força imparável, o prédio foi construído, mas com uma solução capaz de contentar gregos e troianos, ou melhor, puritanos e reformistas.    

O arquiteto bostoniano Henry Cobb encontrou a solução: projetou um prédio invisível. Mais do que isso: o prédio iria ressaltar a arquitetura local, pois esta seria refletida, portanto replicada. 

A John Hancock Tower, imponente em seus 60 andares e 241 metros é um prédio totalmente espelhado. Olhando para ele você vê o bairro. Quando você entra nele parece estar entrando em dois lugares simultaneamente. Um no futuro e outro no passado.

Você pode escolher a face e viajar no tempo. Pode entrar no Stephen Brown Building, construído em 1922, ou no Hotel Copley Plaza, de 1912, ou, quem sabe na Trinity Church, que ficou pronta em 1877. 

Esta história me veio à memória ao escrever a última crônica do ano justamente no último dia. Penso naquele prédio como um Janus da arquitetura. O deus romano que tem duas faces, uma observando o passado e a outra olhando para o futuro. 

Ele me faz pensar em que sou. Descubro que sou um átimo. Apenas isso. Uma porção mínima do tempo, acomodada entre a memória e o sonho. 

Quase entrando em 2024 estou procurando a face do prédio que me convém. Se vou acertar a porta, não sei. Só sei que não posso ficar parado na calçada. 

Feliz Ano Novo, queridos amigos e leitores. 

Tudo de bom!  

 

Adendos:

Eugenio Mussak
John Hancock Tower, Boston, MA.
Eugenio Mussak
Janus, desenhado por IA.

Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica