# 17 – Comendo o próprio rabo

# 17 – Comendo o próprio rabo
Comendo o próprio rabo
(19/11/2025)

A serpente é um animal cheio de simbolismos. 

Aparece em Gênesis armando confusão com Adão e Eva. Representa a fertilidade em Canaã, a força política no Egito e a renovação da vida no caduceu de Mercúrio – o símbolo da medicina.

A serpente é ambígua, pois desperta, simultaneamente, o medo e a admiração, o respeito e a inveja, o belo e o horrível. 

Temos medo dela pelo por seu veneno e porque aparece e desaparece de repente. Mas admiramos a elegância de seus movimentos e sua liberdade. 

Mesmo presa em um aquário, parece livre, pois aquieta-se, ocupa todos os espaços disponíveis e apodera-se da segurança que o cativeiro lhe fornece.

Comendo o próprio rabo

E foi no Egito que surgiu uma versão única da serpente: aquela em que ela aparece comendo sua própria cauda – o uróboro.

Esta serpente que se engole quer representar o eterno recomeço da vida, mas permite outras interpretações. 

Usemos a imaginação: ao formar um círculo, o uróboro cria um espaço interno e outro externo. 

O lado de dentro simboliza o mundo percebido, a vida como a conhecemos. A matéria, o concreto, a natureza, a ciência e a arte. E, no lado de fora, de dimensão desconhecida, provavelmente infinita, caberiam todos os mistérios da vida, sua origem e seu fim, seu propósito, e também a metafísica habitada pelos deuses. 

O círculo criado pela serpente delimita um espaço do todo e fragmenta o infragmentável criando um fractal do infinito.

O uróboro, coitado, tem dois problemas: se ele continuar se comendo vai acabar desaparecendo. E se ele abrir a boca e soltar a cauda, vai deixar de existir.  

É confuso? Pode ser, mas é também fantástico. 

Mas, diz a lenda, que o uróboro, ele mesmo, não teme por sua sorte, pois descobriu o segredo da vida eterna, da sustentabilidade infinita: ele não retira, de si mesmo, mais do que necessita para manter-se capaz de continuar produzindo a substância que lhe garante a vida.

Pronto. Está explicado o que é sustentabilidade

Em qualquer dimensão.

Ótimo domingo! Grande semana!

 

Adendo: 

1) Perto do final do século passado, uma bela e poderosa mulher, a primeira-ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland, subiu com passos decididos na tribuna da ONU e deixou claro: 

Sustentabilidade é satisfazer as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades”.

Todo mundo entendeu. E ela nem precisou falar do uróboro…

2) Pense em quanto esta história se aplica à sua vida pessoal.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica