Deitar e ronronar
(10/12/2023)
– Eles não têm ambições, nem motivação. Não conquistam e realizam coisa alguma. Como eles justificam sua existência?
A pergunta acima foi feita por Calvin a respeito dos tigres, quando viu Haroldo deitado no tapete da sala, totalmente relaxado e sem nenhuma preocupação com a vida.
Para Calvin, que apesar de ter apenas seis anos de idade é um irrequieto pensador, essa é uma postura inaceitável, afinal, é preciso entender e justificar a existência.
A preocupação de Calvin não é só dele, mas com certeza não é a do Haroldo. Afinal, Calvin é um humano e Haroldo é um felino.
E o que diferencia um humano de um felino, um canino, um bovino ou dos outros primatas, é a necessidade angustiante de entender por entender.
OK, é humano, mas, para alguns, não carregar angústias existenciais pode parecer ser alienação, desinformação, isenção, ou inteligência limitada.
Afinal, desde que existimos como espécie pensante discutimos o sentido da vida. E procuramos achar, ou criar, justificativas para termos nascido e nos mantermos vivos.
Dos Diálogos de Platão e dos textos religiosos até os acalorados debates da atualidade, seja na academia, nas empresas, e até nas redes sociais, o assunto está presente.
Será mesmo tão necessário assim?
O Haroldo é um felino que às vezes tem um comportamento humano, e isso dá ao Calvin o direito de se comportar como um tigre eventualmente.
Tanto é que, quando se deu conta que o tigre não tenta justificar nada, não tem angústias e vive sempre leve e tranquilo, ele pensa um pouco e decide deitar-se a seu lado.
Então assume a mesma postura corporal, uma idêntica expressão facial, e trata de relaxar e aproveitar a vida, deixando que ela flua com mansidão.
Às vezes tudo o que precisamos é disso mesmo. Deitar e ronronar. Relaxar e apaziguar. Não precisamos matar um leão por dia. Nem os tigres conseguem.
A vida é muito complicada para não ser simples.
Que você tenha uma ótima e tranquila semana!
Adendos:
Calvin e Haroldo são personagens das tirinhas filosóficas do cartunista americano Bill Watterson, produzidas entre 1985 e 1995, e continuam sendo reproduzidas em mais de 2.000 jornais em todo o mundo.
O nome Calvin é inspirado em João Calvino, um dos líderes da Reforma Protestante, e o nome original do Haroldo é Hobbes em homenagem a Thomas Hobbes, o inglês que disse que o grande predador do homem é ele mesmo.
Sua leitura é uma boa maneira de começar o dia. Abaixo, a tirinha que inspirou esta crônica:
