Deus e os quadris de Elvis
(15/10/2023)
Estive três vezes em Israel. Eu me dedicava à fisiologia desportiva, e fui me atualizar no Instituto Wingate, um dos principais centros de pesquisa dessa especialidade no mundo, localizado em Netanya, ao norte de Tel Aviv.
Em uma oportunidade fui visitar Jerusalém, um dos umbigos do mundo. O trânsito e as manobras do exército na estrada provocaram um atraso, e meu amigo israelense Avi Dvir propôs uma parada em um café à beira da estrada.
Foi o que fizemos, e começaram as surpresas.
Não me lembro o nome do local, mas nunca mais esqueci dele. Era o que podemos chamar de “estabelecimento temático”, decorado, organizado e devotado ao culto de um ídolo. No caso, Elvis Presley.
Os sanduiches tinham nomes das músicas, as paredes eram forradas por pôsteres do cantor, e podiam ser compradas camisetas, canecas e outras lembranças do Elvis the Pelvis.
Não, eu não estava em Memphis, e não estava sonhando. O jovem israelense proprietário do local não abriu mão de homenagear seu ídolo contemporâneo, em uma terra com centenas de ídolos milenares. “Que boa é a liberdade”, pensei.
A surpresa maior veio de uma frase registrada na parede acima do bar. Dizia: “I see God in the movements of Elvis’ hips” – (Eu vejo Deus nos movimentos dos quadris de Elvis).
Caramba, pensei, em pleno berço das religiões monoteístas, este judeu transgressor resolve desafiar o senso comum, e dizer que, para ele, Deus não está só nas sinagogas, nas igrejas ou nas mesquitas. E que Ele é revelado de outras formas, além das escrituras.
Que a mágica da música do Elvis, que sua voz de negro com pele branca, que sua música desafiadora, alegre e amorosa e, principalmente, que sua maneira de dançar enquanto cantava, movendo os quadris como se estivesse fazendo amor, só podiam ser uma face do divino.
Minha forte tendência agnóstica me liberta de procurar uma imagem de Deus, mas, se tentasse, com certeza concordaria mais com o dono do bar do que com a maioria dos chamados donos das verdades religiosas.
Aprecio no Judaísmo e no Budismo o fato de não serem religiões missionárias. Ou seja, seus membros professam sua fé e seguem as liturgias, mas não tentam converter nem salvar a alma de ninguém. Apenas são o que são.
No lado oposto encontramos os pregadores compulsivos e, pior, muito pior, os que impõem, agridem, isolam e matam em nome de sua fé. Não há nada mais hediondo, burro e contraditório do que chamar uma guerra de “santa”.
Apesar de tudo, um ótimo domingo e uma semana sensacional!
Adendos:
1 – Meu amigo Cesar Souza estava em Jerusalém com sua mulher e filha adolescente no dia dos ataques. Acompanhou os primeiros desdobramentos, e saiu via Dubai. Chegando aqui escreveu o ótimo artigo “Lições Sobre Liderança no Front em Israel”.
Num paragrafo ele diz: “Na guerra, a primeira vítima é a verdade”. E recomenda evitar a desinformação tóxica das redes sociais.
2 – Em tempo: um abraço afetuoso e solidário aos professores do Brasil. Há quase 50 anos eu conheço as delícias e as agruras da sala de aula.