# 24 – Espelho, espelho meu…

# 24 – Espelho, espelho meu…
Espelho, espelho meu…
(07/01/2024)

É muito difícil arrumar a estante de livros. Quando tento decidir se um livro vai continuar na estante, ou se vai ser doado, acabo sentando para reler o dito cujo. Pronto… a tarefa de arrumar a estante virou sessão de leitura.  

Nessa lida, peguei O vermelho e o negro, do Stendhal. Considerado um romance histórico psicológico, conta a história de Julien Sorel, um filho de carpinteiro que quer, a qualquer custo, subir na vida afastando-se de suas origens.

Não vou dar spoiler. Leia. Só posso dizer que Julien tentou matar a mulher que amava, para ficar com a que não amava, mas queria amar, porque achava que assim poderia ser o que não era, mas gostaria de ser. 

A história é incrível. E nos faz pensar sobre nossa própria tragédia moderna. O romance é uma crônica do século 19. No século 21 a mesma história seria ainda mais dramática, porque temos um espelho poderoso: as redes sociais. 

Falando nisso, na sala de espelhos de um parque de diversões você se vê achatado e gordo em um espelho, e magricela e comprido no próximo. Você passa da forma de um pião para a de um cone dando três passos. É hilário…

Rimos de nós mesmos porque sabemos que nada daquilo é verdade, nenhuma imagem corresponde à realidade. Trata-se de uma brincadeira.

O problema começa quando você leva a brincadeira a sério. Se você começa a acreditar nas imagens distorcidas que vê. Se você aceitar como verdadeiras as imagens que deixam mais feio ou mais bonito, está na hora de procurar ajuda.

E o espelho que mais usamos não é de aço e vidro. 

Espelhos são as outras pessoas. São os estereótipos de sucesso criados artificialmente e divulgados e potencializados pelas redes sociais.

“Espelho, espelho meu, existe alguém mais feliz que eu?” é a nova frase da Rainha Má, ao postar a última imagem de sua vida editada.     

Negar a própria imagem ou culpar o espelho por refleti-la são atitudes infalíveis para a neurose.   

Desejar ser o que não se é, ou, pior, desejar não ser o que se é, equivale e negar a si mesmo, mentir para a alma, anular sua essência. Ser o que se é, é o primeiro passo e o único caminho para se chegar a ser o que se deseja ser.

Se não gostar de seu penteado não quebre o espelho, penteie-se. Mas use seu próprio pente.

Ótimo domingo! Grande semana!


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica