Eu e minhas sombras
(03/11/2024)
No momento que estou escrevendo esta crônica, chove lá fora. Mas hoje o dia amanheceu ensolarado e eu fui caminhar um pouco. Andei em direção ao sol, agradecendo os raios que aqueciam meu rosto, diminuíam as pupilas e produziam calciferol. Após uns 30 minutos rodei nos calcanhares para iniciar a volta.
Foi então que me dei conta que não tinha estado sozinho até então: minha sombra me acompanhava, e agora ela estava à minha frente. Como eram cerca 8h00, a sombra tinha aproximadamente o meu tamanho, e quando estava me acompanhando pelas costas, era maior que eu. E basta um pouquinho de imaginação para criar um cenário assustador.
Meu atual interesse intelectual me levou, claro, a pensar em outro tipo de sombra. Aquela que me acompanha mesmo sem sol, mesmo à noite. A que não tem tamanho nem forma.
Falo de minha sombra pessoal, arquetípica, parte de meu eu, o lado inconsciente de minha personalidade. A sombra junguiana, onde eu acomodo tudo o que me incomoda em mim mesmo, e escondo de mim. Assim, eu e meu Mr. Hyde, caminhamos de volta para casa, no maior papo, procurando um acerto de contas.
“Sombra”, como conceito, foi criada por Carl Gustav Jung, em sua prática na Psicologia Analítica, com grande ajuda da mitologia, como era de seu estilo. E “entrar na sombra” dá medo, dói um pouco, mas, quando conseguimos, pode ser libertador.
A sombra é feita de tudo aquilo que negamos em nós mesmos – nossos medos, nossas vontades escondidas, as palavras que engolimos e os sonhos que não contamos nem ao travesseiro. No caminho de volta resolvi pinçar algo ali escondido, e “seja o que Deus quiser”, pensei.
Fui até lá e voltei com o seguinte: várias vezes, em minha vida, eu preferi fazer de conta que algum problema não existia. Claro, sei que fugir de um problema doloroso é uma reação instintiva e compreensível. Como mecanismo de defesa chama-se negação.
Mas há pelo menos três pontos críticos aqui: 1- O problema não desaparece porque é ignorado. 2- Ele tende a aumentar quando demora a ser atendido. 3- Um problema não é apenas algo doloroso, tem também um lado pedagógico.
Enfrentando um problema de frente desenvolvemos habilidades, criamos resiliência, ativamos a criatividade, ficamos mais corajosos e aumentamos nossa autoestima. Não é bom?
Sim, as oportunidades também estão na sombra. Tudo o que precisamos fazer é jogar um pouco de luz ali. Como? Olha, uma boa caminhada pode ser um bom começo…
Um ótimo domingo e uma produtiva semana a todos!