# 38 – Eu não acredito

# 38 – Eu não acredito
Eu não acredito
(14/04/2024)

Em quê?

Em nada, ora essa. Em princípio, eu duvido. E isso não tem nada a ver com desconfiança, má vontade ou insegurança. Isso se chama ceticismo, e é uma maneira segura de ver o mundo.  

Ceticismo é uma corrente filosófica, que provavelmente teve início lá pelo século 3 a.C., lá na Grécia (onde mais poderia ter sido?). Na cidade Élis, na costa ocidental, vivia um sujeito que duvidava de tudo e de todos, até que que encontrasse um motivo seguro para acreditar. Seu nome era Pirro.

As pessoas consideravam Pirro um chato, mas, na verdade, ele estava criando o que depois se chamaria de pensamento científico, pois a ciência faz exatamente isso: duvida

O método científico funciona assim: observa, questiona, cria uma hipótese, testa, testa de novo, avalia os resultados, e só então aceita, ou rejeita. 

E você não precisa ser cientista para pensar assim.  Acreditar de imediato em qualquer ideia, proposta ou afirmação tem lá seus riscos. Uma declaração de amor, então, nem pensar. Tudo precisa observado, demonstrado, mostrar constância e consistência. 

Cético (ou céptico) vem do grego sképsis, que significa “análise, investigação”. Ou seja, um cético não é um descrente. Ele está disposto a acreditar, mas, antes, ele quer entender melhor. 

Se dois amigos de um cético lhe dão argumentos opostos, ele aceita os dois, mas também duvida de ambos. E isso não é o que hoje se convencionou chamar de “isentão”. Significa que ele vai avaliar os dois argumentos antes de se decidir.

O ceticismo é bom, e seguro, na medida que nos estimula a entender primeiro, em vez de aceitar de imediato. 

E na religião? Bem, este é um território que trabalha com dogmas, que seriam verdades que não aceitam discussão. E aqui há uma inversão dos fatos: você acredita primeiro e depois avalia. E não avalia a veracidade, e sim os efeitos do acreditar. E isso também tem sua beleza. 

Neste caso, estamos praticando o metaceticismo, ou seja, o ato de duvidar da própria dúvida. Se a existência de Deus não pode ser provada, sua inexistência também não. 

O grego Pirro não era cético, do jeito que entendemos hoje. Ele era um pragmático, e o que ele buscava, ao não julgar precipitadamente, dando o benefício da dúvida a todos, era a ataraxia, um estado de imperturbalidade, ausência de inquietação e serenidade. O ceticismo era apenas um meio. Não um fim. Legal, né?

Um ótimo domingo e uma grande semana! 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica