# 56 – Gosto de palmito cru

# 56 – Gosto de palmito cru
Gosto de palmito cru
(18/08/2024)

Resolvemos passar o fim de semana acampando na serra do Mar, em um lugar que os paranaenses chamam de Pico do Marumbi. Na verdade, um parque estadual, onde o cume chama-se monte Olimpo (em homenagem ao montanhista Joaquim Olímpio, e não à montanha dos deuses gregos).   

Éramos uma dezena de garotos, escoteiros do grupo Jorge Frassati em Curitiba, e todos já tínhamos acampado muitas vezes. Mas aquele acampamento era “extraoficial”: estávamos sem os uniformes, sem o lenço vermelho e branco no pescoço e, a melhor parte, sem o chefe. Éramos nós contra a montanha.

Chegamos ao pé da montanha levados pelo trem que liga Curitiba a Paranaguá, uma obra espetacular de engenharia que atrai turistas, curiosos e especialistas do mundo inteiro. Íamos acampar em um platô que fica a dois terços da subida, e, no dia seguinte, continuaríamos até o topo, parte mais difícil.

Nós estávamos acostumados a esse tipo de aventura, só que naquele dia foi diferente. Alguém havia tido a “brilhante” ideia de reunir todos os mantimentos e colocá-los na mesma mochila… 

José Carlos (acho que esse era seu nome) ficou responsável por transportá-la, e ele simplesmente escorregou nas folhas molhadas no meio do caminho, rolou uns 50 metros, e perdeu, para todo o sempre, a mochila cheia de macarrão, comida enlatada, pão, linguiça, leite, café e a única caixa de fósforos que tínhamos. E foi bem na hora que começou a chover. 

Com chuva e falta de provisões, não tem o que pensar: abortar a missão e recuar. Sobrevivência era o novo pico.  Iniciamos, então, a decida em direção à estação. No painel de avisos, o horário do próximo comboio: domingo 18h00. Eram quatro horas da tarde de sábado.  

Ficamos protegidos na estação, mas logo nos demos conta de algo terrível: ficaríamos um dia inteiro absolutamente sem ter o que comer. Ok, ninguém morre se ficar um dia sem comer, mas conte isso para o estomago de um adolescente. 

Tudo que conseguimos naquele dia foi algum palmito cortado na mata. Mastigávamos o miolo até que ficasse pastoso, então engolíamos. Até hoje lembro do sabor sem graça do palmito cru. E a lembrança desse gosto volta às vezes, como um aviso. 

Ela me alerta que a cada subida nas montanhas da vida eu tenho que contar com dois planos: um que vai funcionar se tudo de certo, e outro para quando tudo der errado. 

Perceba: vivemos entre esses dois polos. E entre a macarronada da avó e o palmito cru, equilibramos nossa existência.

Um ótimo domingo e uma maravilhosa semana a todos!


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica