Minha amiga, a dor
(10/03/2024)
Um plantão de final de semana em um pronto-socorro municipal é garantia de fortes emoções. Este é um lugar onde você pode encontrar a morte e o sofrimento em doses altas.
Certa vez recebemos um casal com um garoto embrulhado em um cobertor – “Ele se queimou… se queimou…” dizia o pai.
Quando lhe perguntei onde era a queimadura ele apontou as nádegas, dizendo que o menino havia se sentado sobre a chapa quente de um fogão a lenha.
Eu e meus colegas nos olhávamos com algum espanto, não pelo desespero dos pais, mas pela calma do garoto, que não parecia demonstrar nenhuma dor.
Mas a impressão de que era um exagero dos pais se desfez quando colocamos o menino na maca de exame e tiramos os panos que o envolviam. A queimadura era séria, muito séria.
Depois de mandá-lo para o centro cirúrgico, o professor que nos acompanhava explicou: “O que vocês acabaram de ver é um caso raro de síndrome de Riley-Day”.
Trata-se de uma anomalia genética muito rara, em que o portador tem uma desordem neurológica que afeta os neurônios sensoriais.
“Ele não sente dor, e essa é sua desgraça”, filosofou o professor.
Eu nunca tinha pensado dessa forma. Jamais me ocorrera que não sentir dor poderia ser uma desgraça. Sempre achei que não sentir dor era bom. O fato colocou a dor na perspectiva correta.
Nunca mais soube daquele pacientezinho curitibano. Torço que ele tenha encontrado uma maneira de conviver com sua síndrome e que tenha levado uma vida razoavelmente normal. Mas nunca esqueci dele, e costumo lembrar daquele sábado em situações em que a dor me acomete, principalmente quando essa dor não é física. Quando o que dói é a alma.
Por algum motivo, parece que demoramos mais para reagir às dores psicológicas e chegamos a atribuir à tristeza um certo grau de normalidade.
Assim como a dor física, a angústia, a tristeza, a raiva, também servem para nos dizer que algo não vai bem. Que temos que sair de cima da chapa quente, e não apenas tomar algum tipo de analgésico emocional.
Um ótimo domingo e uma grande semana!