# 91 – Minha Páscoa

# 91 – Minha Páscoa
Minha Páscoa
(20/04/2025)

Não sou religioso. E não digo isso com orgulho nem com mágoa, apenas com honestidade. Mas reconheço o valor pessoal da fé, aprecio muito da doutrina religiosa, e tenho especial apreço pela Páscoa. Ela me desperta ótimas memórias da infância.

No sábado íamos à igreja ucraniana com minha mãe para “Benzer a Paska”, uma linda cerimônia em que se leva uma cesta com os alimentos de domingo, especialmente o pão trançado (a paska) e os ovos pintados (as pessankas).

Pessach significa “passagem”, e muito representa a vida, que, afinal, é uma sucessão de travessias: da infância à maturidade, da ignorância à lucidez, do velho eu ao novo que vive se reinventando.

Páscoa fala de morte e do renascimento (de Jesus), e, de alguma maneira, representa a realidade (dos humanos). Coisas morrem em nós todos os dias, e outras nascem, em um ciclo belo e necessário.

Algumas crenças precisam morrer para que possamos pensar com mais liberdade. Relações precisam morrer, para que possamos continuar respirando. E também algumas certezas, para que a dúvida (essa nobre ferramenta filosófica) possa operar sua alquimia.

É preciso força. Às vezes, somos obrigados a atravessar mares vermelhos sem ter um Moisés à disposição. Outras vezes, nos falta coragem para deixar o Egito simbólico — aquele lugar opressor, mas conhecido, onde pelo menos sabemos o nome das dores.

Lembrando, no hemisfério norte, onde a civilização teve início, a Páscoa coincide com a primavera. A terra começa a florescer, os animais saem da letargia do inverno e os instintos se reavivam na Natureza. Darwin veria nisso um ciclo absolutamente natural.

Eu vejo também uma metáfora psíquica, ao gosto de Freud. Afinal, há momentos em que é preciso sair do estado invernal da alma, daquele congelamento emocional, e permitir que algo floresça. Um desejo, um projeto, uma vida nova.

Enfim, nem tudo precisa ser sagrado para ser profundo. Celebro as passagens, as pequenas mortes e os renascimentos possíveis. Celebro a chance de me tornar alguém um pouco menos ignorante, menos automático, mais inteiro.

E quem sabe, com sorte, ser digno de ser acreditado, por Deus ou pela vida, que já é um milagre suficientemente complexo para merecer nossa reverência.

Então… Feliz Páscoa a todos!


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica