Nasce uma mãe
(12/05/2024)
– De que sexo você é? – perguntou Cecília ao anjo.
– Anjos não têm sexo porque eles não surgem do mesmo jeito que as pessoas. Nós somos simplesmente criados e não necessitamos que existam dois sexos diferentes para nascer. – respondeu Ariel.
– Pois entre os humanos seria melhor que houvesse três sexos.
– E por que seria? – o anjo fez uma cara de quem duvida.
– É que se dois quisessem fazer um filho, talvez o terceiro dissesse: “Não pessoal, não está na hora! Um de nós três, pelo menos, tem que ter um pouco de bom senso”.
Cecília não pode deixar de rir do seu próprio argumento. Ariel também riu, e disse:
– Lá no céu nós também ficamos parafusando ideias assim.
Esse diálogo fantástico foi travado entre a menina Cecília, que está muito doente, mas conserva a cabecinha funcionando a mil, e o anjo Ariel, que veio para cuidar dela. Faz parte do livro Através do Espelho, do filosofo norueguês Jostein Gaarder, o mesmo que escreveu O Mundo de Sofia.
Conversar com o anjo significa conversar com a própria consciência. O que significa dizer que nosso anjo da guarda vai ficando mais competente na medida em que aumentamos nossa lucidez.
A terceira pessoa proposta pela Cecília, inspirada pelo anjo Ariel, pode ter duas interpretações. A primeira é que que a terceira pessoa é a razão, que deve sempre acompanhar a emoção, pois ser mãe é uma alegria, mas também uma responsabilidade.
A segunda é que, quando uma mulher dá à luz um filho, faz nascer também uma mãe. Todo parto é parto gemelar.
A maternidade está, sim, entre as maravilhas de uma existência. Trata-se de uma experiência que nem sequer pode ser explicada, só pode ser vivenciada através do incontável número de pequenos episódios de descobertas e surpresas.
Ter um filho, vê-lo crescer, sorrir, aprender, errar, dar os primeiros passos em direção ao controle de sua vida. Ser pai é diferente, mesmo assim posso afirmar que meus filhos me tornaram melhor. Ensinaram-me mais do que aprenderam de mim. Deram significado a meu trabalho, aos cuidados com minha saúde e até ao amor que sentia pela mãe deles.
A todas as mães, que, realmente, nasceram com seus filhos, digo que as admiro muito, as respeito e, vai lá, as invejo, por sua capacidade de ser hoje muito mais do que já foram um dia.
Um ótimo domingo e uma grande semana!
Tenho apreço especial por esta foto. Eu a chamo de “A Pietá do ambulatório”.
Nela está o Erik em seu primeiro inverno, recebendo inalação no hospital, nos braços da Luciana, que, com seu olhar, resume a enormidade do que significa ser mãe.