# 95 – Ninguém nasce prompt

# 95 – Ninguém nasce prompt
Ninguém nasce prompt
(18/05/2025)

Certa vez, saindo de uma festinha de crianças, perguntei a meu filho pequeno (então com 3 ou 4 anos) onde ele tinha deixado o casaco. “Onde eu tirei ele” – respondeu o pequeno. E ele estava certo…

Só que ele me deu uma resposta correta que não servia para nada. Então eu tive que refazer a pergunta, para descobrir onde ele estava quando tirou o casaco. “No pula-pula” já me deu uma pista melhor.

Pois é, não basta perguntar, tem que fazer a pergunta certa, do modo certo. Parece óbvio, mas não é. Gasta-se muita energia com interlocuções que não chegam a lugar nenhum, simplesmente porque alguém faz uma pergunta errada e ela desvia totalmente o rumo da conversa.

Muitos problemas seriam evitados se aprendêssemos a fazer as perguntas certas. Perto de Harvard tem um lugar chamado Right Question Institute (Instituto da Pergunta Certa), cujo nome não podia ser mais assertivo. Lá se desenvolveu uma metodologia para perguntar certo. Isso ajuda professores, médicos, advogados, policiais, negociadores, e também pais e mães.

Recentemente o tema ganhou mais relevância, mas por um motivo novo: para conseguir o máximo de aproveitamento da IA, temos que perguntar certo. Só que, neste caso, a pergunta ganhou um novo nome: “Prompt”. E, como sabemos, ninguém nasce prompt. Nascemos rascunho, e passamos a vida tentando virar texto.

Vivemos tempos em que conversar com máquinas deixou de ser sinal de loucura ou coisa de ficção científica. Já estamos fazendo isso há algum tempo, só que algo mudou no planeta web. Usando o Google, conversávamos com uma memória, com o Chat GPT conversamos com uma inteligência. O papo é outro.

Um prompt bem escrito pode render uma resposta de grande utilidade. Já um mal formulado é como gritar “socorro” em uma língua que ninguém entende. E parece que foi assim que
aprendemos a viver: “dando a entender” em tudo. Entre nós, vamos levando, já com a máquina você só pode ter “papo reto”.

Mas, observe o seguinte: essa história de saber formular prompts, joga em nossos colos distraídos um novo enigma velho: como estamos formulando as questões para os outros humanos que, afinal, continuam nos cercando?

Lembre que o outro não é um programa, é um mistério. E não há IA que ilumine a escuridão de uma conversa cheia de hesitações, de não ditos, de silêncios e sentidos ocultos. Se há uma arte a ser aprendida, talvez seja essa: a de formular perguntas que não busquem apenas respostas, mas encontros.

Porque, no fim, o que transforma não é o que se responde, mas o que se compartilha. E isso, lamento informar, não se aprende em tutorial. É preciso viver, e viver com intenção.

Prompt. Era isso…


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica