# 68 – Nosso gato neurótico

# 68 – Nosso gato neurótico
Nosso gato neurótico
(10/11/2024)

No livro de crônicas Como é Linda a Puta da Vida, o jornalista português Miguel Esteves Cardoso escreve que os gatos são lindos e doces, mas também selvagens e agressivos, e que equilibram essa neurose com um incrível talento para procurar e apreciar o conforto, e dormir 20 horas por dia.  

E esse seria o segredo de uma boa vida felina.   

Mas a sabedoria do gato estaria mesmo em ele ter descoberto o sistema binário da existência, que é o seguinte: acorda porque tem fome, e adormece porque comeu. 

No intervalo, faz as necessidades, o que inclui fazer xixi e cocô, bocejar, alongar-se, dar e receber carinho, andar pela casa, observar o mundo, e, claro, manter um “ar superior”. 

E, também, ter acessos curtos de loucura, que é quando ele corre, salta, arranha, morde, e depois dorme como se não devesse nada para ninguém (e não deve mesmo).  

“Se não tem sono, é porque tem fome. Se não tem fome, é porque tem sono”, diz o autor, e refere-se a isso como uma lição de vida. Ele parece descrever o Bento…

Mas o Bento, nosso gato neurótico, partiu nesta semana. E abriu espaço para uma saudade que eu não imaginava. 

Ele acabou de exaurir sua última vida, e foi embora em paz, cercado de atenção médica e amor, principalmente do Erik, que não conhecia o mundo sem o gatinho. 

Aliás, entre tantas coisas que os bichinhos ensinam às crianças, uma delas é a despedida. 

Eu amava o Bento. Nunca soube sua idade, pois foi resgatado do abandono já adulto, mas estimo que viveu cerca de 14 anos. Eu lhe dei muito carinho, e ele me deu muita “gatice”. 

Não há outro ser que se movimente com tamanha harmonia e eficiência biomecânica, usando a chamada “marcha diagonal direta”. Ou seja, pata dianteira direita com a traseira esquerda e vice-versa. Eu observava o andar do Bento como uma obra de arte da natureza. Belo, equilibrado, imponente. 

Admirava a precisão de cada salto. Ele se materializava em meu colo, amassava minha barriga como pão, e eu respondia “também te amo, querido”. Muitas destas crônicas foram escritas assim. 

Bento atendeu à sua necessidade de viver, e foi dormir. Silencioso. Elegante. Piscando os olhos devagar, cumpriu sua missão junto a nós. Que Bastet, a deusa egípcia dos gatos o receba com honras. Adeus, amiguinho. Valeu!

Um ótimo domingo e uma produtiva semana a todos!

 

Eugenio Mussak

Para fechar a crônica, uma imagem dos dois amigos


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica