# 83 – O coração da montanha

# 83 – O coração da montanha
O coração da montanha
(23/02/2025)

Domingo, 7:00. Sento-me para escrever esta crônica em uma varanda com vista para uma lagoa, cercado de Serra do Mar por todos os lados, a cerca de 50 quilômetros de Curitiba. O lugar, transformado em um resort, é lindo, e a paz parece que resolveu morar aqui. 

Sei nada de ornitologia, mas consigo diferenciar um bem-te-vi, um canário-da-terra e um sabiá-laranjeira tocando sua sinfonia, com um galo-tenor entrando nos momentos certos. 

Esta região em nada lembra os tempos modernos, a não ser por duas obras de engenharia: a rodovia Regis Bittencourt, que liga Curitiba a São Paulo, e que passa por aqui em forma de duas mega-pontes, e a usina hidroelétrica Parigot de Souza. Esta merece uma crônica…  

No começo dos anos 1970 havia aqui um riozinho bucólico onde as capivaras tomavam água. Por isso era chamado de rio Capivari. 750 metros abaixo, descendo a serra, havia outro, igualmente manso, mas com pequenas corredeiras, chamado rio Cachoeira, e que ia encontrar o Atlântico. Então alguém teve a ideia de ligar os dois rios.  

Mas, como? Entre ambos está o grande degrau que separa o litoral do planalto, e é formado por vegetação fechada, e, o pior, por um relevo acidentado com centenas de montanhas indiferentes ao homem, à vida e ao tempo. Entre elas, o Pico Paraná, o mais alto da Região Sul, com seus 1877 metros.

“Simples”, disse alguém – “Vamos cavar um túnel”. 

Pois é. Quando quer, o homem vira o que precisa – pássaro, peixe ou tatu. 

E a metáfora com o tatu é perfeita, porque esse simpático mamífero de focinho afilado, pés pequenos, cauda longa e armadura recobrindo o corpo, não fere o solo. Ele apenas o molda para que se transforme em seu abrigo. 

O tatu-engenheiro cavou um túnel na rocha viva, um caminho subterrâneo por onde a água se lança em sua queda controlada, convertendo gravidade em movimento e energia. 

Na base do pico mais alto foi aberta a galeria, um imenso anfiteatro, onde cabem as quatro turbinas, que, movidas pela água que desce, giram a uma velocidade estonteante e realizam a mágica de transformar movimento em luz. 

Nada na paisagem denuncia a presença da obra. Não há turbinas à vista, não há edifícios, nem a represa se vê. A montanha está intocada. Mas em seu peito largo foi instalado um coração que pulsa e leva vida para milhões. Capivari-Cachoeira é um exemplo. Dá pra fazer bem-feito…  

Que você tenha um domingo divertido e uma semana produtiva!


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica