O curador ferido
(09/03/2025)
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”
Carl Jung
O psicólogo suíço coloca essa questão para os terapeutas, mas ela está presente em todas os ofícios.
Nossos títulos e diplomas nos habilitam, mas, ainda que necessários, não são a garantia do bom resultado. É preciso que estejam a serviço do humano, de verdade. Aí está a diferença entre os “bons” e os “grandes”.
Conheço bem dois mundos: a medicina e as corporações, e sei o que médicos e executivos têm algo em comum – os dois lidam com dores. São treinados para avaliar, identificar e curar feridas. E ambos padecem de suas próprias. Então surge a questão:
É possível tratar sem conhecer a dor que se deseja curar?
Para entender, vamos laçar mão do mito de Quíron, o centauro ferido acidentalmente por uma flecha envenenada. E era o pior veneno, aquele que não mata, mas impede a cura e condena quem é afetado a uma dor permanente e eterna.
Quíron já cuidava e tratava dos outros, mas transformou-se no grande curador a partir do momento em que começou a tratar de sua própria ferida. Ele aprendeu com ela. E passou a entender melhor a dor que os outros sentiam.
A isso chamamos empatia, que é o princípio da relação médico-paciente. O médico não sente a dor, mas entende o sofrimento do paciente como se fosse seu. Isso muda a relação entre ambos.
Médicos, terapeutas, professores, líderes, eletricistas, juristas, vendedores, consultores, com as técnicas que aprenderam, tentam aplacar a ferida alheia, seja física, mental, prática ou existencial.
Carl Jung transformou o personagem mitológico em um arquétipo, chamado curador ferido.
Lembra que um curador sempre trata duas feridas: a do outro e a sua própria. E que não será possível cuidar de uma só.
Que você tenha um domingo divertido e uma semana produtiva!