# 97 – O dragão cordial

# 97 – O dragão cordial
O dragão cordial
(01/06/2025)

Hoje estou em Curitiba. E faz frio. Claro que faz – é junho! E é Curitiba – a capital mais alta do Brasil, encostada nos ossos da Serra do Mar, bem ali, onde o Sul já começa a ser quase Sul demais. Há lógica no frio. E há poesia também.

O inverno me lembra minha infância, e a infância tem essa habilidade mágica de nos aquecer por dentro, mesmo quando os pés estão pisando em geada. Eu ia para a escola cedo, com o sol
ainda bocejando atrás das casas. Pisava na grama branca da praça Rui Barbosa a caminho do Colégio Bom Jesus, e escutava, como um segredo, o crepitar da geada sob meus passos. Era bonito. Era crocante. Era frio. E era bom.

Andávamos enroscados em cachecóis, toucas puxadas até os olhos, as mãos metidas nas mangas do agasalho. Da boca saía uma fumacinha quente, como se fôssemos pequenas locomotivas de carne, aquecidas pelo leite morno e pelo dever de chegar na aula.

Curitibanos gostam do frio. E também brigam com ele. É natural. É um afeto ambíguo – como certas amizades intensas, que nos irritam e encantam na mesma medida. Mas noto que as pessoas que se queixam do frio são as mesmas que se queixam do calor quando está quente. E quase todas trazem um certo fatalismo ao tema.

Será que se justifica? Vejamos…

A história climática do planeta é feita de ciclos. Já passamos por várias eras glaciais, algumas durando dezenas de milhares de anos, intercaladas por períodos interglaciais – como o que vivemos agora.

A última glaciação significativa terminou há cerca de 12.000 anos, e desde então o clima tem oscilado naturalmente, influenciado por fatores como a atividade solar, a inclinação do eixo da Terra, a órbita planetária e as correntes oceânicas. É fato que vivemos um aquecimento mais acelerado, mas ele ocorre sobre um pano de fundo natural de variações.

A novidade é a influência das atividades humanas, especialmente a queima de combustíveis fósseis. Não se trata, portanto, de negar o problema, mas de compreendê-lo dentro de um contexto maior: a Terra tem seus próprios ritmos. E nós temos a responsabilidade de dançar com mais cuidado sobre esse palco antigo. A Terra pulsa, respira, alterna suas fases. O que estamos vivendo não é inédito – mas é a primeira vez que somos conscientes disso.

Enquanto isso, aqui em Curitiba, coloco mais um casaco, aqueço um café, e olho pela janela. A grama está branca. O céu, azul como só o céu de inverno consegue ser.

Lá fora, um menino deve estar caminhando feliz por deixar rastros na geada. E soltando fumacinha quente da boca, como se fosse um pequeno dragão cordial.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica