O grande borrão
(03/03/2024)
Primeiro ano da faculdade, aula prática de histologia, disciplina que estuda as células e os tecidos de nosso corpo. Coloquei uma lâmina com um fragmento de pele no microscópio, olhei e vi… nada. Um borrão avermelhado.
A professora Sakiko percebeu, me ajudou a ajustar a ocular, e o milagre óptico se fez: células epiteliais, com suas membranas, organelas e núcleos apareceram como se estivessem impressas em um livro do professor Junqueira.
– Agora estou vendo, professora! Quantas vezes aumentou? – perguntou o calouro curioso.
– Na verdade – respondeu a paciente mestre -, o que interessa não é o aumento, e sim o “poder de resolução”.
– Ã?! – foi tudo o que consegui dizer.
Aí ela me explicou que, para ver com clareza uma coisa pequena, não é suficiente aumentá-la. Um pequeno borrão, aumentado, será um borrão grande. Apenas isso.
Precisamos é aumentar o poder de resolução de nossa visão, que é a capacidade de percebermos a distância mínima que existe entre dois pontos para que eles sejam considerados dois, e não apenas um. É para isso que usamos o microscópio.
Na verdade, ele não age sobre o pequeno objeto, age sobre nosso olho. O instrumento nos permite enxergar separadamente os pontos que compõe o borrão. E então podemos examiná-lo.
Saindo da microscopia e vindo para a vida cotidiana, encontramos algo parecido. Existe uma pequena distância entre os pontos que, juntos, formam nossa existência. Quando não percebemos isso terminamos vivendo em um grande borrão.
As partes que compõe nossa vida se complementam, mas também se superpõem e podem se prejudicar mutuamente. O poder de resolução, neste caso, é o poder do discernimento, da priorização e da organização da vida.
Você nunca sentiu a necessidade de parar um pouco para colocar em ordem os pensamentos? Às vezes parece que estamos perdendo o controle de nossa vida. Ela está virando um borrão…
Um período sabático pode ajudar. Ou uma sessão de terapia ou uma boa mentoria. Ou, ainda, uma viagem sem destino, uma longa caminhada ou uma conversa despretensiosa com amigo, em um bar ou em um café. Todos são “ajustadores do foco”.
Ajuste o foco! E tenha um ótimo domingo e uma grande semana!