O grande incêndio
(07/04/2024)
Se você olhar o Paraná de cima, vai ver um tapete verde.
Cada pedacinho do solo do estado sulista está recoberto por vegetação, cuidada ou preservada. Planta soja, milho, trigo, café, cana de açúcar e feijão. E preserva uma pluralidade de ecossistemas, desde as costas onduladas pela Mata Atlântica até os sussurros dos campos de Cerrado.
A araucária, o pinheiro paranaense, ainda se eleva orgulhosa, como um farol verde em meio à vastidão, ainda que reste menos de 5% do que já foi uma floresta.
Mas, pouca gente sabe que um dia quase todo esse tapete se incendiou e ficou cinza e triste. Eu era um garoto de calças curtas em 1963, mas me lembro bem do que aconteceu.
Em uma grande parte do estado a geada havia secado a vegetação, criando um material altamente inflamável nos campos, fazendas, beiras de estradas e até nas cidades, especialmente as menores.
Para começar o grande fogo, bastou uma pequena faísca…
Até hoje aquele é lembrado pelos paranaenses como o “ano em que o demônio reinou”. Exagero à parte, o fato é que dois milhões de hectares foram queimados em dois meses.
Lavouras, matas nativas e as tão queridas florestas de araucárias. Casas, galpões, silos e máquinas agrícolas viraram cinza ou sucata. Cerca de 6 mil famílias perderam os lares e houve algo como 150 mortes.
Ouvia-se o ruído da madeira queimando perto das pequenas cidades. Em Curitiba, onde eu morava, não houve fogo, mas sentíamos a fumaça nos olhos e nos pulmões.
A população se mobilizou junto com os bombeiros. Cada um fez o que pode. Com colegas da escola, eu recolhia doações.
O fogo acabou sendo vencido pelos esforços, pela chuva que finalmente chegou, e porque não havia mais o que queimar. Aquilo foi o que podemos chamar de uma perfeita “catástrofe”.
Grandes ou pequenas, pessoais ou públicas, as catástrofes fazem parte do cardápio das possibilidades da vida. Evita-las é possível? O primeiro que temos que fazer, é acreditar na sua possibilidade. Para o impossível tudo é possível.
Mas, dois anos depois, pouco se falava sobre o grande incêndio. Com nossas tragédias pessoais acontece o mesmo. O reinado do demônio vira história, e fica em algum escaninho da memória. Pode virar trauma, mas você precisa permitir. Você permite?
Um ótimo domingo e uma grande semana!