# 37 – O grande incêndio

# 37 – O grande incêndio
O grande incêndio
(07/04/2024)

Se você olhar o Paraná de cima, vai ver um tapete verde.

Cada pedacinho do solo do estado sulista está recoberto por vegetação, cuidada ou preservada. Planta soja, milho, trigo, café, cana de açúcar e feijão. E preserva uma pluralidade de ecossistemas, desde as costas onduladas pela Mata Atlântica até os sussurros dos campos de Cerrado. 

A araucária, o pinheiro paranaense, ainda se eleva orgulhosa, como um farol verde em meio à vastidão, ainda que reste menos de 5% do que já foi uma floresta.

Mas, pouca gente sabe que um dia quase todo esse tapete se incendiou e ficou cinza e triste.  Eu era um garoto de calças curtas em 1963, mas me lembro bem do que aconteceu.  

Em uma grande parte do estado a geada havia secado a vegetação, criando um material altamente inflamável nos campos, fazendas, beiras de estradas e até nas cidades, especialmente as menores. 

Para começar o grande fogo, bastou uma pequena faísca…

Até hoje aquele é lembrado pelos paranaenses como o “ano em que o demônio reinou”. Exagero à parte, o fato é que dois milhões de hectares foram queimados em dois meses.

Lavouras, matas nativas e as tão queridas florestas de araucárias. Casas, galpões, silos e máquinas agrícolas viraram cinza ou sucata. Cerca de 6 mil famílias perderam os lares e houve algo como 150 mortes. 

Ouvia-se o ruído da madeira queimando perto das pequenas cidades. Em Curitiba, onde eu morava, não houve fogo, mas sentíamos a fumaça nos olhos e nos pulmões. 

A população se mobilizou junto com os bombeiros. Cada um fez o que pode. Com colegas da escola, eu recolhia doações. 

O fogo acabou sendo vencido pelos esforços, pela chuva que finalmente chegou, e porque não havia mais o que queimar. Aquilo foi o que podemos chamar de uma perfeita “catástrofe”. 

Grandes ou pequenas, pessoais ou públicas, as catástrofes fazem parte do cardápio das possibilidades da vida. Evita-las é possível? O primeiro que temos que fazer, é acreditar na sua possibilidade. Para o impossível tudo é possível. 

Mas, dois anos depois, pouco se falava sobre o grande incêndio. Com nossas tragédias pessoais acontece o mesmo. O reinado do demônio vira história, e fica em algum escaninho da memória. Pode virar trauma, mas você precisa permitir. Você permite?

Um ótimo domingo e uma grande semana! 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica