# 14 – O medo e a curiosidade

# 14 – O medo e a curiosidade
O medo e a curiosidade
(29/10/2023)

– Você está com medo? – Perguntou a jovem Caroline à sua mãe em seu leito de morte. 

– Não, estou curiosa. – Respondeu Daisy Fuller, que então sorriu e começou a contar à filha um grande segredo de seu passado.

Envolvia o grande amor de sua vida, a verdadeira paternidade de Caroline e ainda a história fantástica de um homem que nasceu velho, rejuvenesceu com a vida e morreu como um feto. A história de um tal Benjamin Button. 

Este é o enredo de um conto de F. Scott Fitzgerald, que virou filme de David Fincher, interpretado por Brad Pitt e Cate Blanchet. 

Benjamin tem uma trajetória de vida totalmente oposta à natureza humana, pois, em vez de envelhecer, ele rejuvenesce. 

Fitzgerald, que morreu com 44 anos, era um homem angustiado. Talvez quisesse subverter a maior das angústias humanas: a percepção do envelhecimento e a certeza de seu epílogo, a morte. 

Se pudéssemos, todos preferiríamos evitar essa sequência natural. Se nos fosse dado escolher gostaríamos de ver nosso corpo melhorar com o tempo, e não se deteriorar inexoravelmente como um prenúncio do fim. Ah, se tivéssemos esse poder… 

A literatura, que aceita todas as ideias, e o cinema, que as transforma em imagens, conseguiram inverter essa lógica cruel da natureza. 

Mas Benjamin Button não é Connor MacLeod, que vive para sempre. Ele vive o tempo de uma vida, e mostra que ainda que tentemos (e até certo ponto consigamos) segurar o tempo, não teremos como vencer a morte. 

A anciã Daisy conhece essa verdade e lida com ela com a sabedoria de quem viveu intensamente. Por isso não teme, apenas está curiosa. 

Sinceramente, este é o sentimento que eu gostaria de ter quando a hora chegar. E acho que será possível, pois a curiosidade tem sido, para mim, uma companheira de vida.

Ser curioso, neste caso, significa querer saber da vida, suas possibilidades, angústias, mistérios e maravilhas. Se tivermos essa curiosidade vital, haverá um momento em que ela desejará apenas ver o que há do lado de trás da cortina. 

Esta é uma perspectiva sobre o assunto. Há outras. Freud coloca a consciência da morte como uma causa da angústia humana. Epicuro não tinha medo porque jamais a encontraria a morte – quando ela chegasse, ele partiria. Woody Allen preferia ser imortal não por sua obra, e sim não morrendo. Gênios!

A verdade é que podemos teorizar, filosofar, poetizar e até fazer piada, mas, no máximo, vamos escolher a emoção que nos acompanhará. O medo e a curiosidade estão entre as disponíveis. 

O Imperador Augusto, por exemplo, pediu um espelho para ajeitar as madeixas e disse aos que o amparavam em seu leito de morte: “Se vocês gostaram da encenação, aplaudam, para que eu possa sair de cena feliz”. 

Estava certo, o romano. Morrer é sair de cena, e só nos resta aceitar que a peça terá um fim e que devemos interpretar nosso papel de viventes como virtuoses deste teatro fantástico. 

Ótimo domingo! Grande semana!

 

Adendo: 

Dedico esta crônica a minha irmã Daria, que saiu de cena neste mês, em sua casa em Phoenix, Arizona. Aprendi com ela que a alegria de viver é uma escolha, e que qualquer outra seria um desperdício. 

Longeva, dizia que seu segredo era não abrir mão de três coisas: dançar, tomar vinho e fazer amor.  

RIP, beloved sister.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica