# 81 – O menino que vendia sonhos

# 81 – O menino que vendia sonhos
O menino que vendia sonhos 
(09/02/2025)

Eu sei, esta crônica tem título de livro de autoajuda, mas ela conta uma passagem real de minha vida.  Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, tive meu primeiro “negócio”: eu vendia sonhos. Literalmente…

Eu estudava de manhã, e, à tarde, após a lição de casa, e um pouco de basquete na praça, pensei que eu devia tentar ganhar alguns trocados, já que eu não tinha mesada.  

Pedi, então, para minha mãe, que era boa doceira, fazer sonhos de goiabada. Uma dúzia. Coloquei em uma bandeja, cobri com um pano de pratos e fui para um lugar movimentado, a porta do Correio Central, na rua XV de Novembro, em Curitiba.

Meio sem jeito, cheguei lá na metade da tarde, me posicionei na porta principal, meio dentro, meio fora, descobri as lindas esferas douradas, e oferecia com voz quase inaudível: “Vai um sonho, moça?”.  Vendi todos antes do fim do expediente.

A empreitada era simples, o produto era bom, e o mercado existia. Mas não estava livre de percalços. Certa vez fui afastado pelo segurança do local. Outra vez fui visto por um colega da escola, que praticou aquilo que hoje chamamos de bullying

Apesar disso, meu negócio prosperou, eu pagava minha “fornecedora”, e o lucro me fez um “garoto de posses”. Tenho orgulho dessa história.  

Curiosamente, esse fato ficou adormecido em minha memória. Não é algo que eu conte com a mesma fluência de minha história como professor, ou médico.  

Mas recentemente comentei com uma pessoa que me ouve com atenção e valoriza os detalhes, pois é uma estudiosa da alma humana, e gosta de roteiros originais. Ela acompanhou o relato com algum encanto, o que muito me alegrou, e de repente disse:  

“Mas é isso que você continua sendo, um vendedor de sonhos”.

Eu entendi a metáfora, pois eu dou aulas e palestras, escrevo livros e crônicas, e, talvez, sem ter essa pretensão, por estimular pensamentos, abra espaço para sonhos. 

“A diferença é que naquela época eu vendia e entregava” – respondi, jogando com a ideia de que agora vendo mas não entrego. “Entrega sim” – disse ela – “coloca nas mãos dos clientes”.  

O menino da rua XV cresceu, mas continua ali, na essência. Ainda carrego minha bandeja, agora com outros tipos de sonhos, feitos de saberes, não de farinha. Recheados de ideias, não de goiabada.  Menos palpáveis, não tão doces, mas, quem sabe, igualmente necessários. 

Que você tenha um ótimo domingo e uma semana produtiva!


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica