# 93 – O mundo em blocos

# 93 – O mundo em blocos
O mundo em blocos
(04/05/2025)

Eu tenho algumas rotinas nos finais de semana que passo com meu filho Erik, de 9 anos. Uma delas é jogar xadrez. Ele está ficando bom, e, no sábado passado, partiu de mim propor um empate, que, para ele, teve sabor de vitória, claro. Ficou feliz. E eu mais ainda. Depois ficamos conversando sobre o jogo, sobre valor dele para nos ensinar coisas como estratégia e consequências.

Só que essa conversa teve um efeito colateral: do xadrez, um jogo criado na Índia no século 6, derivamos para o Minecraft, lançado na Suécia em 2011. E eu, de mestre, virei aprendiz.

Aprendi que, assim como no xadrez, as regras são simples, mas as combinações, infinitas. Ele me mostrou um lugar onde se pode, em poucos cliques, levantar um castelo flutuante, cavar um túnel até o centro da Terra ou domesticar um dragão invisível.

Mais que um jogo, conheci uma experiência ontológica. Piaget e Winnicott teriam adorado, afinal, é brincando que se constrói a identidade. O jogo é livre, estimula a invenção, a experimentação e o sonho. O jogador molda o mundo com sua imaginação. É como a infância, com sua fluidez, sua plasticidade, sua liberdade criadora.

Enquanto me mostrava no computador, Erik produziu meu avatar, que ilustra o cabeçalho da crônica. Acho que agora sou da tribo…

Mas, como todo mundo encantado, o Minecraft também tem sua floresta escura. Ali, na penumbra digital, mora o risco do excesso. De esquecer que há um mundo fora da tela onde as árvores não são feitas de pixels e onde os lobos não somem na tecla “Esc”.

É sedutor viver num universo onde tudo obedece à vontade do jogador. O problema é quando essa lógica começa a parecer mais aceitável que a do mundo real.

Ainda assim, não me apresso em condenar, pois vi com meus próprios olhos meu filho resolver problemas complexos, cooperar com amigos, rir alto ao vencer um desafio improvável.

O jogo, afinal, é como a vida: pode ser abrigo ou prisão, terreno fértil ou caverna escura. Tudo depende de quem constrói, e de quem está por perto para lembrar que os blocos mais importantes ainda são os do afeto, do diálogo e da presença.

No domingo fomos ao cinema, assistir A Minecraft Movie, e admito que voltei para casa um pouco zonzo. Realmente, o mundo dos nossos filhos não é o mesmo que o nosso foi. Eles não precisam de nossos mapas prontos. Precisam de espaço, ferramentas e, quem sabe, alguns blocos.

E nós, pais? Bem, talvez nossa missão seja menos a de compreender, e mais a de acompanhar. Sentar ao lado, como eu fiz naquele cinema, e reconhecer com humildade: “Não entendi nada,
mas adorei ver você entender tudo”.

São João e o McDonald’s


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".