O Natal é legal
(24/12/2023)
Bem, pra começar: o que você acha mais legal (ou não), no Natal? A doutrina ou a liturgia?
Só para lembrar, na religião, a doutrina é o conjunto de crenças, ensinamentos e dogmas oficiais que definem a teologia e produzem a fé.
É o alicerce teórico que oferece a compreensão do divino, do universo, da vida, e das questões morais e espirituais.
Quando você assiste a uma missa, o momento da doutrina é quando o padre faz o chamado “sermão”, lê uma passagem da bíblia e discorre sobre ela. O resto é liturgia.
Liturgia é o conjunto de rituais da cerimônia. São as formas de adoração, os ritos a serem seguidos, os momentos, os cânticos, os ambientes, as orações, as músicas e os cheiros.
É através da liturgia que a doutrina se torna mais concreta, é sentida, experimentada, gera memória e orienta comportamentos.
Em muitos sentidos, a doutrina é o “esqueleto” teórico da fé, enquanto a liturgia é a “carne” que traz a fé à vida através de práticas concretas, individuais e comunitárias.
Pois o Natal, como a mais celebrada data cristã, também tem doutrina e liturgia. Se esta data reforça em você os valores do amor ao próximo, da compaixão, da humildade, do perdão, da justiça e da fé, você está se conectando com a doutrina do cristianismo. Parabéns. O resto é liturgia.
Nada contra a missa do galo, o presépio, o Papai Noel, a ceia e a troca de presentes, mas tudo isto são símbolos. Existem para nos conectar com um fato: o nascimento de Jesus, cujas mensagens, subversivas para a época, deram origem à segunda, e maior, religião monoteísta do mundo.
E se você não curte o lado religioso, pense no seguinte: você pertence à civilização ocidental e, vivendo dentro dela, você tem de praticar, ou pelo menos, respeitar, os marcos criadores que a definem e a sustentam.
A maneira como vivemos, ou seja, a liturgia de nosso cotidiano, foi sendo criada ao longo do tempo, por valores, princípios, regras e crenças que nos fazem ser o que somos. Para facilitar, aqui vai o tripé de sustentação do mundo em que vivemos: a filosofia grega o direito romano e a doutrina cristã.
Então, seja em respeito ao nascimento do Cristo, seja pelo culto à figura pagã do Papai Noel, seja para integrar-se e preservar a cultura de nossa civilização, ou, simplesmente, seja para curtir o feriado e as festas, aproveite e tenha um Feliz Natal!
Acredite, é melhor ter Natal do que não ter Natal!
Adendos:
Sugiro uma pesquisa rápida sobre as ideias do cientista político americano Samuel Phillips Huntinton (1927-2008), que foi muito influente nas decisões da política mundial dos Estados Unidos, certas ou erradas.
Em 1993 ele publicou na revista Foreign Affairs, um artigo em que alertava que, pós-guerra fria, as fontes de tensão mundiais não seriam mais ideológicas, e sim culturais. Que as próximas guerras não seriam mais entre nações, mas entre civilizações. Será que ele estava certo ou errado? Qual a maior tensão mundial hoje? E qual o valor de nossos símbolos culturais?
Coloque em sua lista de leituras para o ano que vem