# 15 – O papel do caramelo

# 15 – O papel do caramelo
O papel do caramelo
(05/11/2023)

Passei boa parte de minha infância na Argentina e ainda guardo boas lembranças da época.  

Muitas delas são ligadas à escola, principalmente a alguns colegas. Lembro do Hector, que se sentava ao meu lado, da Graciela, a melhor aluna, do José, o mais forte. E também lembro do Ramón, que tinha vindo com sua família do Chile.

Alguns o chamavam de índio, porque ele era, nitidamente, descendente dos povos originais daquela faixa de terra que separa os Andes do Pacífico, provavelmente dos Mapuches. 

Para controlar aquele povo acostumado às condições mais inóspitas de vida, mas que não entendia o conceito de posse da terra, os europeus usaram as armas, a lei, a religião e, finalmente o álcool. 

Até então eles eram condores livres para voar entre o Atacama e a Patagônia sem pedir licença. 

Ramón tinha um sorriso largo e era incrivelmente calmo. Não participava das brincadeiras bobas, esperava sua vez para falar e não reagia às provocações. Era um bom aluno e era, também, muito pobre. 

Ele não frequentava a lanchonete, pois nunca tinha dinheiro para comprar caramelos, que era como chamávamos uma bala deliciosa e pegajosa que todos gostávamos. Ramón apenas olhava. Certa vez lhe ofereci um caramelo, e sua resposta me surpreendeu. 

Ele disse: “dame apenas el papel”. Ele recusou a bala. Pediu o papel em que ela vinha embrulhada, onde ficava grudada uma boa quantidade do caramelo pegajoso.

A partir desse episódio ele se tornou um amigo próximo, e, mesmo assim, continuou preferindo o papel, e não o caramelo. Nunca me esqueci do Ramón, e hoje, analisando essa memória afetiva tão forte, eu concluo que ela se deve à dignidade com que ele se comportava. 

Ele até podia aceitar um caramelo, mas, com seu gesto, ele evitou criar um hábito de dependência dos outros.

Desconheço o destino de meu pequeno amigo de infância, mas tenho razões para supor que construiu uma vida boa e digna, afinal, ele era forte como um raulí, o pinheiro chileno. 

Sua lembrança aparece sempre que me dou conta que preciso respeitar os limites que a vida me impõe a cada momento, ainda que eu não deva me conformar com eles. 

Quando puder comprarei todos os caramelos que quiser. Antes disso eles, provavelmente, eles teriam o gosto rançoso das meras aparências.  

Ótimo domingo! Grande semana!

 

Adendo poético: 

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira do poço da sombra
e pescar a luz caída com paciência

Se cada dia cai

Pablo Neruda


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica