# 88 – O que a IA não fará

# 88 – O que a IA não fará
O que a IA não fará
(30/03/2025)

As discussões sobre a IA estão perto de se tornarem monótonas. Versam sempre sobre o mesmo tema: o que a IA pode fazer. Esta crônica é sobre o que a IA não pode fazer. Vejamos alguns pontos: 

  1. A IA não pode experienciar – A IA pode analisar milhões de relatos sobre o amor, desejo, temor e sofrimento. Mas ela nunca sentirá nada disso. Sua “inteligência” é fruto da correlação entre dados, enquanto a nossa é atravessada pela subjetividade, pela vivência e pelo significado. 
  2. A IA não pode criar do vazio – Sim, ela pode escrever poemas, compor músicas e pintar quadros, mas tudo isso é variação do que já existe. A criatividade humana vem do inesperado, do erro, da intuição. Insights surgem no banho, em um sonho ou num momento de epifania. A IA não sonha e não tem “momentos mágicos”.  
  3. A IA não pode fazer escolhas morais – Um sistema pode ser programado para reconhecer padrões éticos, mas não sente o peso de uma decisão moral. O dilema de Antígona, o conflito entre dever e desejo, é uma questão excessivamente humana. Não envolve apenas lógica, mas consciência, culpa, responsabilidade.
  4. A IA não pode dar sentido à existência – Ela pode catalogar todas as respostas filosóficas já dadas para a questão do sentido da vida, mas não pode buscá-lo por si mesma. O ser humano se pergunta, se inquieta, transcende. Somos a única espécie que se angustia com o próprio destino, que reflete sobre sua finitude e que encontra significado na incerteza.
  5. A IA não pode substituir a relação humana – Em um mundo cada vez mais digital, corremos o risco de confundir interação com conexão. Mas há algo que só os seres humanos podem proporcionar uns aos outros: a presença real. O olhar do outro, a escuta genuína, o abraço sem palavras. A IA simula diálogos, “conversa” conosco, mas não está verdadeiramente presente.

Diante disso, a grande questão não é apenas o que a IA pode ou não pode fazer. Mas o que nós, humanos, faremos com o que a IA pode fazer. Se abdicarmos da escolha, perderemos a relevância. 

Mas não porque a IA terá vencido. E sim porque teremos esquecido quem realmente somos.

Tenha um divertido domingo e uma produtiva semana!


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica