O supérfluo indispensável
(18/02/2024)
“Proíba-se a Natureza de ter mais que a Natureza,
e a vida de um homem se igualará à de um bicho”
Shakespeare
Shakespeare foi um inovador nas palavras. O bardo inglês tinha coisas a dizer, e queria que as pessoas o entendessem, mas também que se encantassem e que se divertissem.
As 37 peças e o grande número de sonetos de Shakespeare são dedicados a interpretar a essência do ser humano, mas também são exemplos de estilo, de estética, de beleza linguística.
Em sua obra contam-se cerca de 17 mil palavras que não eram comuns no vocabulário britânico da época e, destas, cerca de 1.700 foram de sua própria criação. Quando não encontrava a palavra certa ele simplesmente a inventava, e tais palavras hoje integram o cotidiano da língua inglesa.
Graças a essa combinação extraordinária ele traduziu o íntimo das pessoas, e conseguiu fazer isso com muita beleza.
A frase acima está no ato 2, cena 4 de Rei Lear, e, completa, é assim:
“Não argumente com a necessidade. Mesmo os mais pobres mendigos têm dentro de suas humílimas posses algo supérfluo. Proíba-se a Natureza de ter mais que a Natureza, e a vida de um homem se igualará à de um bicho”.
Pois é, não se argumenta com a necessidade, ela existe e pronto. Tem vida própria, aparece quando quer e só vai embora quando saciada ou substituída por outra. Necessidade não se explica. Se sente e se atende. E nossas necessidades vão além do básico.
Nossa casa, por exemplo, é nosso espaço de proteção, mas não só da chuva, também da monotonia e da feiura. Não queremos uma casa só para morar, também para viver.
O supérfluo, na visão do bardo inglês que nasceu em Stratford-upon-Avon no dia 23 de abril de 1616 e morreu no mesmo dia 52 anos depois, é uma necessidade.
Sem ele não vivemos, apenas sobrevivemos. Por isso precisamos de arte, poesia, música, arquitetura, moda. “A gente não quer só comida” disseram os Titãs. “A gente quer comida, diversão e arte”.
Mas, cuidado, a diversão e a arte, não dispensam a comida. Não podemos inverter essas necessidades e afrontar a hierarquia. A comida, o sono, a fisiologia do intestino são necessidades do corpo. A beleza e a arte são necessidades da alma.
A questão é: já que temos que fazer tanta coisa, como trabalhar, morar, locomover-nos, estudar, consumir, estudar, frequentar locais, ir a supermercados, andar pela rua, por que não fazer tudo isso com um pouco mais de estilo?
A estética, a arte, o estilo e a elegância só não necessários aos espíritos pequenos. É só algo para pensar…
Ótimo domingo! Grande semana!