# 94 – Os gritos do corpo

# 94 – Os gritos do corpo
Os gritos do corpo
(11/05/2025)

Fiquei gripado nesta semana. Três dias derrubado, sem energia para nada além de combater o vírus que me invadiu. No silêncio forçado da convalescença, percebi algo incômodo: meu corpo já havia pedido descanso antes. Só que eu não ouvi.

Na verdade, ouvi sim. Mas ignorei. Disfarcei o cansaço com café, empurrei a exaustão com planilhas, disfarcei a irritação com sorrisos protocolares.

Segui em frente até que o corpo, sem escolha, gritou. E gritar, para ele, é adoecer.

Aprendi de novo o que já sabia: o corpo sussurra antes de adoecer. Ele avisa. Pela tensão dos ombros, pelo suspiro mais profundo, pela insônia disfarçada de produtividade. Mas vivemos como se fosse possível florescer o ano inteiro, sem poda, sem pausa, sem inverno.

Adoecer, às vezes, é só o corpo fazendo aquilo que a agenda se recusava a permitir: parar.

Foi nesse intervalo forçado que pensei em criar um pequeno ritual, a ser repetido todos os dias: dedicar alguns minutos a, simplesmente, ouvir meu corpo. Se ele disser que está bem,
seguimos. Se estiver pedindo arrego, paro tudo, porque um corpo maltratado gera uma alma impaciente.

O corpo é sábio. Só precisa ser ouvido antes de ser vencido. Vamos ao protocolo vital que resolvi adotar, e ofereço a você, caro leitor, querida leitora:

  1. Pausa consciente – Encontre um momento no início do seu dia. Feche os olhos por um instante, respire fundo três vezes, e diga internamente: “Agora eu te escuto, meu corpo.”
  2. Escaneamento simples – Passe mentalmente pelo seu corpo, percebendo cada parte. Sinta sua testa, seus ombros, sua respiração, seu estomago, seus braços, pernas e pés.
  3. Acolhimento – Nomeie o que sente. “Estou tenso.” “Estou leve.” “Estou com dor nas costas”. Sem julgamento e sem medo. É apenas um reconhecimento.
  4. Ação mínima de cuidado – Conclua dizendo: “Tudo bem, corpo. Eu te ouvi. O que posso fazer por você agora?”.

Talvez seja apenas alongar os ombros. Beber água. Caminhar um pouco. Respirar fundo. Ou até prometer uma pausa verdadeira no meio da tarde – e cumpri-la. Esse exercício, feito todo dia por uma semana, muda a relação com o próprio corpo.

Aos poucos o corpo deixa de gritar, porque entendeu que está sendo ouvido. E, com alguma atenção, você vai ouvir o suspiro do prazer de um corpo respeitado.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica