Querer e saber viver
(22/09/2024)
Você sabe quando está ficando maduro (e um pouco sábio) quando consegue avaliar os erros que cometeu sem se culpar ou sofrer. Ando experimentando essa sensação.
Um deles está sendo uma revelação: na maior parte da vida eu confundi “saber viver” com “querer viver”.
Admito que sou um cara que gosta de viver intensamente. Não me nego momentos de prazer, não recuo diante de desafios, não perco oportunidades para aprender. Sempre disse que queria viver intensamente, e, com diria o Neruda, “confesso que vivi”.
Agora, quando o assunto é “saber viver”, o buraco é mais embaixo (nunca entendi esse ditado esquisito).
Aliás, o próprio título do livro de memórias do poeta chileno sugere que há algo de errado em quem gosta de viver intensamente. Afinal, trata-se da confissão de um culpado diante do tribunal da vida. Ou da consciência.
Tipo “Ok, eu vivi intensamente, eu confesso, agora pare de me torturar” …
Não, não há erro nessa proposta existencial. O único problema é que demoramos um pouco para conjugar na mesma frase o “querer” com o “saber” sem gerar conflito entre os dois verbos. Pessoalmente, acho que estou começando a “saber” por que estou conseguindo viver sem precisar controlar tudo o tempo todo. Até porque, aprendi, o controle é a grande ilusão.
Ananke, a deusa grega do controle sobre o curso do universo, não abençoava nem os outros deuses com sua graça. Zeus, por exemplo, com quem ela teve um affaire, não controlava seus impulsos e vivia tendo filhos e acessos de fúria.
Falando em mitos, os Titãs escreverem que “Quem espera que a vida seja feita de ilusão pode até ficar maluco ou morrer na solidão”. Pois é, sonhamos a ilusão e vivemos a realidade.
Ninguém está livre dessa dicotomia, mas o que dá para fazer, é não se quebrar inteiro ao sair do metrô do desejo para a plataforma do possível. Como diz o tube londrino: “Mind the gap”.
A música continua dizendo que “É preciso ter cuidado pra mais tarde não sofrer”, e é isso que a maturidade pode trazer. A oportunidade de dar esse passo com segurança, sem perder o equilíbrio.
O “É preciso saber viver” do refrão é de livre intepretação. Uma delas é: “viva, erre, aprenda e viva de novo”. Ou: “ria, chore e ria de novo, desta vez, mais alto” …
Um ótimo domingo e uma produtiva semana a todos!